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OBAOBA
A República de Obaoba foi fundada em uma mesa de bar, e sua constituição redigida num guardanapo de papel. Através de medida provisória, ficou estabelecido que o cidadão obaobense que levantar-se para desaguar seus líquidos no banheiro perderá seu cargo no Executivo, passando-o para o companheiro à direita. E assim sucessivamente, num inédito rodízio de poder. Não é um país sério, repete o garçom num falso sotaque francês. No entanto, jamais se viu um golpe de estado em Obaoba, e seus cidadãos a consideram a mais perfeita democracia do mundo.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 17h57
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DÚNIA
Dúnia vendeu sua virgindade por trinta copeques a um mujique, sob o toldo de uma carroça de feno. Com o dinheiro, comprou uma passagem de terceira classe para Praga.
No meio do caminho, os soldados assaltaram o trem. Como já não tinha mais o que oferecer, nem moedas nem inocência, foi abandonada à beira da estrada. Nunca pôde conhecer a cidade daquele moço cujos textos lia escondido, à luz de velas, entre uma surra e outra aplicadas pelo pai embriagado.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 21h38
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MANIFESTO ANTROPOFÁGICO 2
Numa esquina qualquer de Dublin, Macunaíma vende uma jaca a Leopold Bloom.
Duas horas depois de comê-la, no apartamento, Molly tem alucinações com Cobra Norato devorando um auto-retrato de Francis Bacon.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 13h55
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ÚLTIMA FLOR
(em tempos de unificação do idioma...)
Facilitando o trabalho do médico, Miguel já adiantou, com seu sotaque de além-mar: Sofro de angina, doutor. O doutor, em sua alva preocupação, internou-o na UTI, com fios coloridos a lhe sair do peito e agulhas por todos os lados.
Miguel não entendeu tanto cuidado por uma dorzinha à-toa na garganta.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 23h43
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BOLA DE MEIA
Vem babar, vem
(o boneco recostado no muro só observa em seu silêncio de boneco)
vou te dar um banho de bola, boneco
(observa em seu silêncio de boneco as pernas finas, desajeitadas, os pés descalços chutando a bola de meia e)
vem, boneco
(e chamando para o jogo, mas ele, boneco, não se mexe e só observa)
vem bab
(só observa quando o enorme monstro de metal colhe o corpo frágil correndo atrás da bola de meia sem)
...
(sem ver o caminhão em alta velocidade)
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 10h55
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SEGUNDA CHANCE
Que porra de vida é essa uma garrafa de pinga como companheira pra aquecer as tripas nas noites frias um cobertor de notícias velhas e as estrelas como teto? De manhãzinha a geada realça ainda mais o branco dos cabelos em desalinho a falta de dentes e o hálito da madrugada anterior. Passantes riem alguns jogam moedas sem valor uma piada qualquer.
Não existo.
Sei que não existo.
Porque sou uma impossibilidade um narrador em primeira pessoa inverossímil mendigo de praça cachaceiro que falaescreve como um erudito mas não conheço Joyce ou Faulkner nem sei quem é Bloom e menos ainda onde fica Dublin nunca li Palmeiras Selvagens aliás nunca li merda nenhuma poderia parecer quem sabe um Quixote moderno se tivesse a mínima idéia de quem foi Miguel de Cervantes e no entanto escrevofalo em fluxo de consciência monólogo interior e sequer ouvi falar em Virginia Woolf então mesmo sem saber que porra é verossimilhança sei que não existo porque sou inverossímil míssil autodestrutivo erudito porranenhuma sei que me chamo Otto e isso é um palíndromo e nem consigo dizer palíndromo com a cabeça cheia de cachaça cabeça cheia de cachaça é uma aliteração e nem sei que porra vem a ser uma aliteração alteração altercação jogo inútil de palavras de um narrador impossível que nem conhece poesia João Cabral Ezra Pound nunca ouvi falar Otávio Paz paz de espírito e se eu soubesse quem é Manoel de Barros diria que me pareço com ele barba branca branda como a geada das manhãs e o frio.
Minha cabeça cheia de cachaça poderia repetir aliterantemente o que é que tem nessa cabeça irmão cuidado que ela pode irmão se ao menos conhecesse a cabeça de Walter Franco vanguarda nem sei o que é Murilo Rubião Jorge de Lima Haroldo de quê? Tudo é uma questão de manter.
Manter a inverossimilhança a espinha ereta e o coração tranqüilo.
Quem passa e ri e atira uma moeda qualquer sabe também que não existo piada de mau gosto. Mau agosto de geada branca graus negativos e a cachaça.
Poesia.
Eu poderia se soubesse dizer que um corvo pousou na minha barriga cheia de vermes nunca mais nunca mais mas ignoro Allan Poe tão embriagado quanto eu caindo morto pelas sarjetas de Boston. Bosta. Nunca mais ouvi falar de Boston Dublin Paraty Passo Fundo Budapeste. De peste eu sei.
Sou assim enfim narrador impossível improvável. Não existo e não há nem pode haver segunda chance pra mim que não conheço Hemingway bêbado como eu Horacio Quiroga bêbado como eu Qorpo Santo louco como eu Maupassant louco que nem. Nunca mais. Nunca na vida ouvi esses nomes por isso inexisto sou inverossímil. Sou invero. Sou inverso.
Verso.
Palavra.
Verbo.
Segunda chance.
No princípio era.
Tudo é uma questão de manter.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 20h28
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O POETA É UM FINGIDOR
Trancado no apartamento de dois quartos em Quartier Latin , demorou seis meses para escrever seu livro de memórias: os tanques na rua, o bombardeio a La Moneda , a morte de Allende. Depois, a fuga de Santiago com rumo à Europa.
Após o ponto final, um Cabernet Sauvignon de Valle Central e alguns sonetos de Neruda.
Do lado de lá da janela, contemplava-o uma Paris que o viu nascer, crescer e tornar-se um grande mentiroso.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 10h55
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PÓSTUMO
Ferido em sua honra, Johann von Wanderburg amolou a faca para enterrá-la no peito do rival, à saída do teatro. Na esquina, escondido em sombras, sentiu a mão fraquejar.
Voltou ao sobrado e, à luz de velas, escreveu um romance de quinhentas páginas em apenas uma noite.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 19h53
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O GRITO DE DÉDALO
“Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!”
(Bertold Brecht)
Dezessete de julho de 2007: abrimos nossas janelas e, pálidos de espanto, ouvimos não estrelas, mas os ecos da absurda explosão do vôo 3054 em Congonhas. Assusta, apavora, revolta, mas lamentavelmente não surpreende. Porque a tragédia aérea não pode ser chamada de acidente: a recorrência exclui a fatalidade, o fortuito. Sobretudo quando incompetência e negligência caminham de mãos dadas. Como uma crônica de um desastre anunciado, há muito os especialistas alertam sobre os riscos de um sistema que não prioriza a segurança dos passageiros. Aquele Outro decantado, como profetizou Hilda Hilst, permaneceu surdo a nossa humana ladradura. O resumo desta ópera dramática é que, antes mesmo de uma conclusão definitiva sobre o choque entre duas aeronaves no Centro-oeste há menos de um ano, mais de duzentas pessoas são vitimadas em um novo episódio. A matemática macabra aponta para quase quatrocentas mortes somadas as duas ocorrências. O Estado, como Medeia, assassina seus próprios filhos. E, à maneira de Lorde McBeth, fecha os olhos e ignora o fantasma de tantos Banquos a assombrar suas noites.
Como um impotente Dédalo a ver a queda de Ícaro com suas asas desfeitas pelo calor do sol, resta a nós, os filhos que sobrevivemos, um indignado grito preso na garganta. O mesmo Dédalo que instruiu Ariadne a utilizar um fio condutor para retirar Teseu do labirinto de Minos. Talvez o que nos falte seja este fio condutor para que possamos sair do perigoso labirinto em que nós mesmos nos metemos.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 23h26
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PROPEDÊUTICA
Após o desjejum, Malcolm III foi acometido por uma dor aguda embaixo da costela direita, como se afiada lança cutucasse o fígado já magoado pelo vinho da véspera. Chamado às pressas, Sir Charles Scarburgh, o cirurgião real, diagnosticou a causa nos maus humores do monarca e prescreveu um clister com meia onça de Infusão Laranja de Metais e um dracma de vitríolo branco, de duas em duas horas. Á noite, enquanto o exército de Angus McPher invadia o castelo, depois de saquear o feudo, o soberano explodia em cólicas o conteúdo líquido de suas sagradas tripas na Latrina Real, ornada em bronze. No hall, Sir Charles recebia das mãos de Angus seu peso em ouro, pelos relevantes serviços prestados.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 08h03
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A HISTÓRIA DE LILA
Corta-lhe o cabelo e lhe tirarás toda a força, sentenciou a velha naquele linguajar estranho típico das feiticeiras.
À noite, dois comprimidos de dormonid no uísque pra ele não sentir o toque da tesoura na cabeça.
Não adiantou nada.
Ao acordar e perceber o estrago, ele lhe bateu com uma força ainda maior que a de costume.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 09h46
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ALQUIMIA
Em seu laboratório nos subúrbios de Evian, o alquimista Linaeus da Capadócia teve a cabeça destroçada por uma pedra. O assassino, seu aprendiz Luc de Artois, fugiu em direção ao bosque, carregando consigo as fórmulas para transformar ferro em ouro. À porta da cabana, lavou o sangue das mãos na fonte de águas termais.
No dia seguinte uma estranha e inédita estátua de ferro e ouro derramava lágrimas na praça central da cidade. Tinha às costas, em bronze, o embornal roubado do alquimista.
marcelo d´ávila
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Escrito por marcelo às 23h03
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O IMAGINÁRIO DE TODOS NÓS
Ao receber os originais de O Imaginário da Floresta, recentemente lançado pela Martins Fontes (www.martinsfontes.com.br) para que fizesse sua apresentação, imediatamente vieram na memória personagens como o Tibicuera de Érico Veríssimo ou A Vaca Voadora de Edy Lima; além, obviamente, do turma do Sítio de Lobato e do Herói sem Nenhum Caráter de Mário de Andrade. Porque todos - e muitos mais - foram a base sobre a qual fundaram-se os alicerces de minha vivência literária. Pois agora, Vera do Val - a autora deste Imaginário e amiga muito querida - recupera um pouco desta identidade nacional no gênero infanto-juvenil, dominada atualmente por bruxos europeus adolescentes, anéis mágicos e guarda-roupas encantados, universos distantes da realidade tupiniquim. O Imaginário da Floresta é dedicado aos curumins que matam a sede nas escuras águas do Rio Negro, mas também é dos moleques da Sé e da Candelária, dos guris que correm na pampa sulista, dos manezinhos da Ilha e dos meninos da Pampulha. Bebem no leito místico do Amazonas, mas miram-se igualmente nos espelhos do Paraná, do Araguaia, do Velho Chico e do Tietê. Esta grande floresta de que nos fala Vera do Val é toda ela a terra do Pindorama, onde canta o sabiá. Este é o imaginário de todos nós.
O IMAGINÁRIO DA FLORESTA, Vera do Val, Ed Martins Fontes, 2007, 96 pgs.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 17h47
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VESPERAL
Verto em
verbo
a voz
emudecida:
a outra voz -
aquela
envaidecida
que averba
reverbera
e
verbifica
verbalizando a
verve
vanguardista:
metáfora e
véstia
desta vida.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 22h22
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O ÚLTIMO APITO
(livre e levemente inspirado em "Uma noite de outono", de Máximo Gorki)
Desde que a fábrica fechou as portas, Natacha tem procurado comida pelas areias da praia. A boca do filho busca em vão resquícios de vida nas tetas ressequidas.
Então, desaba a tempestade. Natacha e o menino abrigam-se sob a proteção de uma velha canoa emborcada. O vento atravessa frestas na madeira, gelando ossos e almas. Natacha abraça o menino. No entanto, trabalhou a vida inteira na fábrica; nada sabe das marés. À tardinha, quando a chuva recrudesce, as águas do mar invadem a areia. E Natacha já não tem forças para virar a canoa.
Enquanto sente a maré subindo, mordendo as pernas, gelando a barriga, sufocando o menino, parece ouvir ao longe o último apito da fábrica.
marcelo d'ávila
Escrito por marcelo às 10h36
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