 |
|
|
INTERTEXTUAL (2)
Cabral descobriu o Brasil mas foi Joao Cabral quem traduziu.
marcelo d avila
Escrito por marcelo às 13h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
UM LOUCO Trazia um cravo morto na lapela - o terno risca de giz roído de traça e tempo: dileto cavalheiro das ruas e avenidas, das praças e passeios, marquises e vitrines. Aos risos e olhares debochados respondia: faço versos. E era a poesia sua mais lúcida loucura.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 12h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
AUTOBIOGRAFIA No parto nasço O morro é o berço Minha crença, o terço E a fé no braço No Narco cresço Bobeou, eu mato A vida é o preço Do pão no prato.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 09h52
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
TEORIA
Lavoiser já dizia: no mundo nada se cria. O que é novo é de novo - e o resto é poesia. marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 09h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
INTERTEXTUAIS
Mais de ano depois, volto para atualizar o Kayuá. E o faço com um "brincadeira poética": as "Intertextuais", poemas curtos em homenagem a grandes poetas da Literatura Universal. Começo com Leminski e Manoel de Barros:
LEMINSKIANA
Quem pode
pode:
a poesia de Leminski
era bem maior
que
seu bigode.
DE BARROS E VERSOS
Manoel
é um velhinho,
bem velhinho.
Gosta
de sapo
formiga
e ribeirão.
Não usa
máquina
pra escrever -
mas o seu lápis -
Ah! - o seu lápis
é
uma varinha de condão.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 08h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
OBAOBA
A República de Obaoba foi fundada em uma mesa de bar, e sua constituição redigida num guardanapo de papel. Através de medida provisória, ficou estabelecido que o cidadão obaobense que levantar-se para desaguar seus líquidos no banheiro perderá seu cargo no Executivo, passando-o para o companheiro à direita. E assim sucessivamente, num inédito rodízio de poder. Não é um país sério, repete o garçom num falso sotaque francês. No entanto, jamais se viu um golpe de estado em Obaoba, e seus cidadãos a consideram a mais perfeita democracia do mundo.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 17h57
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
DÚNIA
Dúnia vendeu sua virgindade por trinta copeques a um mujique, sob o toldo de uma carroça de feno. Com o dinheiro, comprou uma passagem de terceira classe para Praga.
No meio do caminho, os soldados assaltaram o trem. Como já não tinha mais o que oferecer, nem moedas nem inocência, foi abandonada à beira da estrada. Nunca pôde conhecer a cidade daquele moço cujos textos lia escondido, à luz de velas, entre uma surra e outra aplicadas pelo pai embriagado.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 21h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
MANIFESTO ANTROPOFÁGICO 2
Numa esquina qualquer de Dublin, Macunaíma vende uma jaca a Leopold Bloom.
Duas horas depois de comê-la, no apartamento, Molly tem alucinações com Cobra Norato devorando um auto-retrato de Francis Bacon.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 13h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
ÚLTIMA FLOR
(em tempos de unificação do idioma...)
Facilitando o trabalho do médico, Miguel já adiantou, com seu sotaque de além-mar: Sofro de angina, doutor. O doutor, em sua alva preocupação, internou-o na UTI, com fios coloridos a lhe sair do peito e agulhas por todos os lados.
Miguel não entendeu tanto cuidado por uma dorzinha à-toa na garganta.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 23h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
BOLA DE MEIA
Vem babar, vem
(o boneco recostado no muro só observa em seu silêncio de boneco)
vou te dar um banho de bola, boneco
(observa em seu silêncio de boneco as pernas finas, desajeitadas, os pés descalços chutando a bola de meia e)
vem, boneco
(e chamando para o jogo, mas ele, boneco, não se mexe e só observa)
vem bab
(só observa quando o enorme monstro de metal colhe o corpo frágil correndo atrás da bola de meia sem)
...
(sem ver o caminhão em alta velocidade)
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 10h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
SEGUNDA CHANCE
Que porra de vida é essa uma garrafa de pinga como companheira pra aquecer as tripas nas noites frias um cobertor de notícias velhas e as estrelas como teto? De manhãzinha a geada realça ainda mais o branco dos cabelos em desalinho a falta de dentes e o hálito da madrugada anterior. Passantes riem alguns jogam moedas sem valor uma piada qualquer.
Não existo.
Sei que não existo.
Porque sou uma impossibilidade um narrador em primeira pessoa inverossímil mendigo de praça cachaceiro que falaescreve como um erudito mas não conheço Joyce ou Faulkner nem sei quem é Bloom e menos ainda onde fica Dublin nunca li Palmeiras Selvagens aliás nunca li merda nenhuma poderia parecer quem sabe um Quixote moderno se tivesse a mínima idéia de quem foi Miguel de Cervantes e no entanto escrevofalo em fluxo de consciência monólogo interior e sequer ouvi falar em Virginia Woolf então mesmo sem saber que porra é verossimilhança sei que não existo porque sou inverossímil míssil autodestrutivo erudito porranenhuma sei que me chamo Otto e isso é um palíndromo e nem consigo dizer palíndromo com a cabeça cheia de cachaça cabeça cheia de cachaça é uma aliteração e nem sei que porra vem a ser uma aliteração alteração altercação jogo inútil de palavras de um narrador impossível que nem conhece poesia João Cabral Ezra Pound nunca ouvi falar Otávio Paz paz de espírito e se eu soubesse quem é Manoel de Barros diria que me pareço com ele barba branca branda como a geada das manhãs e o frio.
Minha cabeça cheia de cachaça poderia repetir aliterantemente o que é que tem nessa cabeça irmão cuidado que ela pode irmão se ao menos conhecesse a cabeça de Walter Franco vanguarda nem sei o que é Murilo Rubião Jorge de Lima Haroldo de quê? Tudo é uma questão de manter.
Manter a inverossimilhança a espinha ereta e o coração tranqüilo.
Quem passa e ri e atira uma moeda qualquer sabe também que não existo piada de mau gosto. Mau agosto de geada branca graus negativos e a cachaça.
Poesia.
Eu poderia se soubesse dizer que um corvo pousou na minha barriga cheia de vermes nunca mais nunca mais mas ignoro Allan Poe tão embriagado quanto eu caindo morto pelas sarjetas de Boston. Bosta. Nunca mais ouvi falar de Boston Dublin Paraty Passo Fundo Budapeste. De peste eu sei.
Sou assim enfim narrador impossível improvável. Não existo e não há nem pode haver segunda chance pra mim que não conheço Hemingway bêbado como eu Horacio Quiroga bêbado como eu Qorpo Santo louco como eu Maupassant louco que nem. Nunca mais. Nunca na vida ouvi esses nomes por isso inexisto sou inverossímil. Sou invero. Sou inverso.
Verso.
Palavra.
Verbo.
Segunda chance.
No princípio era.
Tudo é uma questão de manter.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 20h28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
O POETA É UM FINGIDOR
Trancado no apartamento de dois quartos em Quartier Latin , demorou seis meses para escrever seu livro de memórias: os tanques na rua, o bombardeio a La Moneda , a morte de Allende. Depois, a fuga de Santiago com rumo à Europa.
Após o ponto final, um Cabernet Sauvignon de Valle Central e alguns sonetos de Neruda.
Do lado de lá da janela, contemplava-o uma Paris que o viu nascer, crescer e tornar-se um grande mentiroso.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 10h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
PÓSTUMO
Ferido em sua honra, Johann von Wanderburg amolou a faca para enterrá-la no peito do rival, à saída do teatro. Na esquina, escondido em sombras, sentiu a mão fraquejar.
Voltou ao sobrado e, à luz de velas, escreveu um romance de quinhentas páginas em apenas uma noite.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 19h53
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
O GRITO DE DÉDALO
“Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!”
(Bertold Brecht)
Dezessete de julho de 2007: abrimos nossas janelas e, pálidos de espanto, ouvimos não estrelas, mas os ecos da absurda explosão do vôo 3054 em Congonhas. Assusta, apavora, revolta, mas lamentavelmente não surpreende. Porque a tragédia aérea não pode ser chamada de acidente: a recorrência exclui a fatalidade, o fortuito. Sobretudo quando incompetência e negligência caminham de mãos dadas. Como uma crônica de um desastre anunciado, há muito os especialistas alertam sobre os riscos de um sistema que não prioriza a segurança dos passageiros. Aquele Outro decantado, como profetizou Hilda Hilst, permaneceu surdo a nossa humana ladradura. O resumo desta ópera dramática é que, antes mesmo de uma conclusão definitiva sobre o choque entre duas aeronaves no Centro-oeste há menos de um ano, mais de duzentas pessoas são vitimadas em um novo episódio. A matemática macabra aponta para quase quatrocentas mortes somadas as duas ocorrências. O Estado, como Medeia, assassina seus próprios filhos. E, à maneira de Lorde McBeth, fecha os olhos e ignora o fantasma de tantos Banquos a assombrar suas noites.
Como um impotente Dédalo a ver a queda de Ícaro com suas asas desfeitas pelo calor do sol, resta a nós, os filhos que sobrevivemos, um indignado grito preso na garganta. O mesmo Dédalo que instruiu Ariadne a utilizar um fio condutor para retirar Teseu do labirinto de Minos. Talvez o que nos falte seja este fio condutor para que possamos sair do perigoso labirinto em que nós mesmos nos metemos.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 23h26
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
PROPEDÊUTICA
Após o desjejum, Malcolm III foi acometido por uma dor aguda embaixo da costela direita, como se afiada lança cutucasse o fígado já magoado pelo vinho da véspera. Chamado às pressas, Sir Charles Scarburgh, o cirurgião real, diagnosticou a causa nos maus humores do monarca e prescreveu um clister com meia onça de Infusão Laranja de Metais e um dracma de vitríolo branco, de duas em duas horas. Á noite, enquanto o exército de Angus McPher invadia o castelo, depois de saquear o feudo, o soberano explodia em cólicas o conteúdo líquido de suas sagradas tripas na Latrina Real, ornada em bronze. No hall, Sir Charles recebia das mãos de Angus seu peso em ouro, pelos relevantes serviços prestados.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 08h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
 |
| [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |