Kayuá


                                              FANTASMAS

 

 

         Meus fantasmas são diferentes dos fantasmas de todos os outros e de todos os outros fantasmas. Há os que aparecem como sombras, vagos e em silêncio, a apontar sinais de suas mensagens do além. Estes são silhuetas imprecisas, mal lembrando as faces e formas que ostentavam em vida. Há os que nem como sombras dão seus ares, mostrando-se unicamente através de gemidos e correntes arrastadas. Há outros, os que aparecem somente em sonhos, e que deixam, ao despertar de seus interlocutores, a impressão de que são apenas isso – um sonho. Há, ainda, aqueles que se manifestam através da voz e dos gestos dos vivos, a quem as ciências ocultas chamam de espíritos. Nada mais são que fantasmas. Por fim, existem os que se mostram na forma exata que tinham quando viventes. Os traços do rosto, com as marcas do tempo e das desilusões estampadas, recordam fielmente as fotografias dos álbuns e das lápides. Invariavelmente, trazem no corpo descarnado as roupas que vestiam no momento de suas mortes, além das chagas que as provocaram.

           Assim são meus fantasmas. Têm a idêntica figura de seus tempos de existência terrena, do preciso instante em que cessaram seus últimos suspiros. São baixos e gordos, ou altos e esguios, ou, ainda, fortes, largos, encurvados, flácidos. Vestem ternos de riscado, bombachas, calças jeans, vestidos longos e mini-saias. Cada um com sua peculiaridade. Têm nome e sobrenome. Uns são extrovertidos, conversam com incontida euforia, gesticulam em excesso. Outros, reservados, preferem o silêncio. Apenas observam. A mim se mostram em praças, bares, restaurantes, na rua ou no cinema. Não escolhem hora ou lugar.

         Meus fantasmas são diferentes porque não só eu, mas todos os vêem. Os demais apenas ignoram que eles são fantasmas.   

 

 

         Ricardinho é um fantasma esquálido, mal vestido. Traz sobre o corpo uma camiseta rasgada e suja, onde se lê o nome de um político. A calça de agasalho marinho, com duas listas brancas na lateral de cada perna, tem proteções de couro em ambos os joelhos, desfiados pelo uso. Nos pés, chinelos de borracha ordinários. Sua pele é azulada. Morreu de frio em uma rua escura de Porto Alegre, no rigoroso inverno sulino. Sempre nos encontramos à tardinha, em um boteco na Rua da República. Come compulsivamente as coxinhas de galinha que pago, e que o garçom atrás do balcão serve com indisfarçável tédio, sem suspeitar a condição de meu protegido. Tinha treze anos de idade quando morreu, mas seu tipo físico parece o de uma criança de dez, pela baixa estatura, pela magreza e pela tristeza no olhar. Quando solta os braços ao longo do corpo, as meias-mangas da camiseta ultrapassam seus cotovelos em direção aos antebraços, ocultando parcialmente as marcas dos maus-tratos sofridos em vida. Os hematomas arroxeados que se sobrepõe à tez celeste, as queimaduras dos cigarros apagados de encontro à pele e as variedades diversas de escoriações, no entanto, são facilmente identificáveis quando torna a levantar o braço para apanhar outra coxinha no balcão. Nunca suspeitei que fantasmas precisassem de alimento. Ele explica que não precisa, que a comida é apenas um vínculo com sua existência anterior, assim como as moedas que ofereço e que aceita com satisfação, fazendo-as tilintar ao jogá-las no bolso raso do agasalho. Ao se despedir, esboça um meio-sorriso, com lágrimas nos olhinhos repuxados e pequenos. Pelo menos, agora não sinto frio.  E parte, mãos nos bolsos a fazer tilintar as moedas, assoviando a melodia de uma antiga cantiga de ninar.

 

(continua...)



Escrito por marcelo às 21h28
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         O Doutor Silveirinha constata enfaticamente que o Brasil perdeu todas as suas guerras. Dentre todos os seus interlocutores, na sauna do clube, sou o primeiro a discordar, alegando que fizemos uma boa figura na Guerra da Tríplice Aliança, além das Grandes Guerras. Seguro de suas convicções, rebate que não se refere à história, que fala das guerras atuais. Alguém recém-chegado ao grupo utiliza-se de uma frase feita para dar sustentação à minha argumentação. O Brasil é um país sem guerras e sem terremoto, para nossa felicidade.              

       Silveirinha, com sua experiência e intelecto, evidencia o engano do amigo, afirmando que estamos perdendo todas as nossas guerras diárias. A guerra contra a fome, a miséria, a corrupção, a falta de ética e de moral. Que perdemos há muito a guerra contra os bandidos, o crime organizado e o narcotráfico. Que não nos resta muito a fazer, senão vivermos nossas vidinhas medíocres de maneira justa e honesta, sem preocupação com o que vai acontecer amanhã. Ele sabe, mais do que ninguém, a verdade de suas palavras. O Doutor Jacinto Albuquerque da Silveira Júnior, conhecido por seus colegas advogados e por seus alunos da faculdade de Direito de Ribeirão Preto como Silveirinha, graças ao pequeno porte e ao carisma que tinha, foi assassinado durante um assalto à sua casa de praia em Guarapari, no verão de 1998. Nossos colegas de sauna – admiradores seus – desconhecem sua história. Apresentei-o apenas como “um amigo e brilhante advogado”. A toalha que envolve o abdome volumoso – a mesma que usava na saída do banho, quando ouviu ruídos no andar de baixo da ampla residência de Guarapari – esconde o orifício do projétil calibre .40 que tirou-lhe a vida, cinco anos atrás.

 

 

         De meu terceiro fantasma sei a história através dos jornais. Por um motivo simples. Ele ainda não sabe falar. È um bebê. Uma menina. Todas as manhãs, desde a primeira vez que apareceu, apanho-a no banco da praça em frente a meu apartamento, quando saio para o trabalho. Mesmo que todos os recém-nascidos se pareçam, logo reconheci a criança encontrada sem vida em uma praça de Cruz Alta, certamente abandonada pela mãe após o nascimento, fato que os jornais da capital noticiaram com discrição. Levo-a comigo, a caminho do escritório, para um passeio de ônibus, o que parece acalmá-la. Sua presença no coletivo, no entanto, atrai a atenção dos outros passageiros, que sequer disfarçam o desconforto provocado pelo choro intermitente àquela hora da manhã. Lançam-me olhares de reprovação. Na metade da viagem, o bebê acaba por dormir em meu colo, para tranqüilidade dos demais.

 

 

         O auxílio nos cuidados à criança me é dado por Beth, a prostituta. Todos os dias ela aguarda com paciência minha chegada à firma. De maneira delicada, toma o bebê adormecido dos meus braços, agradecendo à secretária pelo café. Desde o princípio expliquei que se tratava de uma babá, contratada para cuidar da criança que adotei recentemente. Por fidelidade ao patrão ou porque realmente não lhe interessa, Regina, minha secretária, jamais perguntou nada a respeito. Na verdade, Beth está procurando recuperar o tempo perdido. Em vida, sempre quis ser mãe. Obrigada pelo padrasto a se prostituir aos dezesseis anos – após estuprá-la – nunca pôde realizar seu sonho. Aos vinte e dois fugiu para Curitiba, onde continuou a exercer sua profissão. Alta, elegante e muito bonita, não teve dificuldade para freqüentar as rodas da alta sociedade, participando de festas e cerimônias como acompanhante de luxo de empresários ilustres e profissionais endinheirados. A três dias de completar vinte e cinco anos, morreu de overdose em uma cobertura na Amintas de Barros, próxima ao Teatro Guairá. Não fosse isso, confidenciou certa vez, seria a AIDS. Estava contaminada, como foi constatado na necropsia, embora não tivesse nenhum sintoma da doença. Com a menina no colo, some pela porta do elevador. Só volto a vê-las no dia seguinte. O bebê no banco da praça, logo cedo. Minha amiga prostituta, conversando animadamente com Regina, em minha sala de espera.

 

(continua...)



Escrito por marcelo às 21h26
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         As grandes janelas do restaurante, no último andar do shopping, permitem admirar à distância o Rio Guaíba. O mâitre estranha a recusa de meu convidado em retirar seu chapéu. Mas não insiste. Aprendeu, após tantos anos na função, a não contrariar as excentricidades dos clientes. A meu pedido, coloca à nossa disposição uma mesa próxima à janela. Como todo bom anfitrião, desejo mostrar a Sérgio as belezas de minha terra. Embora seja um homem culto, meu amigo não conheceu, quando vivo, o sul do país. Veio conhecê-lo precisamente após sua morte, no Maranhão. Promotor público em seu estado, Sérgio investigava um esquema de cartelização entre empresários locais. Foi executado quando retornava para casa, em uma noite de fevereiro, quando os sons do carnaval nordestino abafaram o tiro que ceifou sua vida. O chapéu, à semelhança da toalha de Silveirinha, serve para esconder o buraco provocado pela bala. Apesar de toda a comoção causada pelo crime, os autores nunca foram identificados. Sérgio conforma-se, antevendo que seu assassinato cairá no esquecimento, como tantos outros. Após o almoço, o mâitre aceita com satisfação a gorjeta oferecida, lançando um olhar de desconfiança para o chapéu de meu convidado.

 

 

         Na Santa Casa, encontro Ramiro. Encosta-se nas paredes do setor de emergência, como se estivesse procurando um apoio para manter-se em pé. Sua imagem reforça esta impressão. Os olhos fundos, de mucosas descoradas, destacam-se no rosto de maçãs salientes. A velha camisa entreaberta deixa ver as carnes magras esforçando-se para manter a respiração ruidosa. A cada ciclo respiratório, as costelas parecem querer romper a tênue camada de pele que envolve o tórax raquítico.  Com um frasco de soro preso ao braço direito, acompanha em silêncio o desdém dos atendentes. Uma enfermeira detém-se à sua frente, penalizada pela patética figura. Pergunta-lhe se está aguardando leito, observando o soro gotejando nas veias exangues. O paciente, com voz rouca, responde que sim, obrigado, está aguardando. Na verdade, Ramiro está aguardando leito desde que sofreu três paradas cardíacas no corredor da emergência de um hospital público no interior de Goiás, onde morreu vitimado pela tuberculose. Quando a enfermeira se afasta, Ramiro, com um sorriso sem graça, pede que lhe alcance um cigarro.

 

 

         Assim são meus fantasmas. E são muitos outros. O contador que só aparece no escuro do cinema, para que os demais não percebam os ferimentos causados pelo acidente sofrido na BR 101. O fotógrafo morto quando fazia a cobertura de um conflito social na periferia de São Paulo. O empresário que, vestido com camiseta, tênis e bermuda, joga futebol na quadra do clube. Todos admiram seu fôlego, sem saber que morreu sufocado no porta-malas de seu automóvel durante um seqüestro em Parati, no Rio de Janeiro. A dona-de-casa que encontro no supermercado, pálida, vítima de hemorragia interna causada pela ruptura do baço após apanhar violentamente do marido. E tantos outros...

         E todos os vêem.

         Apenas ignoram sua condição de fantasmas, que assombram o dia-a-dia deste país de tantas misérias.

            

 

 

 

 

 



Escrito por marcelo às 21h24
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À BOA MESA

 

A poesia está posta sobre a mesa:
indigesto prato,
repasto
aos eruditos;
e assim
fica
o dito
e o não-dito
pelo escrito.

E a sobremesa
é goiabada Cascão.




Escrito por marcelo às 22h17
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ROTA ALTERADA

ROTA ALTERADA

 

         Tecnicamente ele está morto, ouvi o homenzinho de branco dizer, certamente apontando para mim, olhos cobertos por vendas de gazes, um tubo enfiado goela abaixo para manter a respiração e um cano no nariz, tudo isso graças ao primeiro tiro que me acertou durante a perseguição, depois de eu ter matado três deles, os idiotas nem tiveram tempo de reagir, era meu AK contra os três-oitão enferrujados deles, mas vacilei e me acertaram primeiro na perna, saí tropeçando, os caras me pegaram e me colocaram dentro da viatura, bateram bastante sem usar os cassetetes e as coronhas, pra não deixar marca, e atiraram bem no meio da minha cabeça como se tivesse acontecido durante o tiroteio, aí me largaram afogando em sangue na porta do hospital pra fazer de conta que estavam me socorrendo, fazendo vez de bonzinhos, os filhosdaputa, achando que eu já era, mas não perceberam que estava vivo, os caras de branco me meteram numa maca, enfiaram este tubo pela garganta, tinha uma mina bombando um tipo de balão de borracha verde que mandava oxigênio pra dentro dos pulmões, soro e sangue nas veias corroídas pelo pó, me deixaram peladão como vim ao mundo, cortando minhas roupas de cima a baixo com uma tesoura sem ponta, e logo me mandaram pra dentro duma geringonça que parecia um túnel, tomografia, ouvi alguém dizer, e dali correndo pra sala de cirurgia, paredes de azulejos brilhantes, azul turquesa e branco por todos os lados, rasparam às pressas meu cabelo descolorido de água oxigenada, em contraste com a pele morena, saco, eu cuido tanto dessa carapinha, a Juliana adora enrolar os dedos nela, eu vendo tudo, apesar de muitos já me darem por finado, não havia dor, só medo, medo, medo e frio, não sentia os braços, as pernas, caralho, será que vou ficar brocha, já vi mano levar azeitona na coluna e nunca mais poder andar nem trepar, de repente uma luz forte, ofuscante, doendo nos olhos, um sol dentro da sala, senti, apesar da anestesia não dormi nem nada, senti mexerem na minha cabeça, um barulho de serra elétrica, lembrei da vez que matei aquele jornalista metido a esperto, só porque trabalhava na Globo, usei uma serra pra separar os braços e as pernas do resto do corpo, caralho, agora não sinto mais meus próprios braços e pernas, será que vou ficar brocha, não vai faltar neguinho querendo comer a Juliana se eu não puder mais comparecer, senti os caras de branco mexendo na minha cabeça, dentro dela, embaralhando as idéias, uma vez vi no Fantástico uma reportagem sobre esse negócio de lavagem cerebral, será que é isso, vão me transformar num zumbi de merda, um robozinho, um escravo do sistema, sim senhor não senhor,  ou quem sabe os caras só estão fazendo o lance deles, tentando salvar minha vida de merda, eles nem devem saber quem eu sou nem o que faço pra defender o meu, os meganhas me atiraram aqui dentro sem falar quase nada, não devem saber que transo bagulho pros filhinhos de papai, pros filhos deles mesmos, que eles acham uns santinhos mas quando descobrem um baseadinho de nada no quarto da molecada xingam e brigam e depois vão encher a cara com uísque importado, não devem saber que já apaguei a bala um médico, estão fazendo o deles, tentando salvar essa vida de merda, me tiraram da mesa cirúrgica com um turbante de ataduras na cabeça e agora já estou num salão grande, cheio de aparelhos, gente berrando e gemendo nas camas, outros mudos como se já estivessem mortos, com a pele amarelada, caquéticos, vejo tudo mas não sinto nada do pescoço pra baixo, tem um velho amarrado com lençóis no ferro da cama, do lado de um gordo com um dreno enfiado no meio das costelas, um outro que se sacode todo como se estivesse recebendo a Pomba Gira, até que me vendam os olhos com gaze, queria tirar esse tubo de merda da goela, esse turbante de atadura da cabeça, será que a bala ficou lá dentro, será que me transformaram num zumbi, que vou ficar paralítico e brocha, neguinho que quiser comer a Juliana vai se ver comigo, não sinto as pernas e os braços, não sinto dor, só medo, medo frio e sede, o tempo indo embora, me enfiaram mais um cano pelo nariz, ouço os gemidos e ouço o silêncio em volta, ouço as horas e os dias passando devagar, no salão, o velho, vizinho do gordo, sumiu do mapa, acho que bateu as botas, levaram uns e trouxeram outros, não sei há quanto tempo estou aqui, e agora esse cara vem dizer que estou tecnicamente morto,  vejo as paredes de azulejos azuis e brancos, o tempo, o medo, o frio...



Escrito por marcelo às 22h56
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