PASSARELA
Todos os olhos e flashes e luzes estão voltados para mim. A passarela se abre à minha frente. Ampla. É minha arena. Sei que nasci para isso. Desde o princípio soube. Meu destino é brilhar neste palco.
Ouvi, enquanto esperava para entrar na passarela, lá fora, que o desfile está sendo transmitido via satélite para todo o país. Perfeito. Devo caprichar. Mostrar a todos que sou a melhor.
Com malícia, inicio meu desfile com a técnica que só eu conheço. Passos milimétricos, planejados. Cabeça erguida, algo arrogante. Eles gostam dessa arrogância. Essa postura superior que faço questão de mostrar.
Em certo ponto, dou meu golpe preferido. Próximo à platéia, remexo sedutoramente as ancas. Os homens enlouquecem. Alguns se levantam de seus assentos. Arregalam os olhos. Provoco.
Sinto o cheiro de terra, de mato. Vem da decoração da passarela, ornada com espécies nativas do chão de onde vim. Traz lembranças.
(CONTINUA...)
Escrito por marcelo às 22h06
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Subitamente levada de volta ao passado, enquanto todos me aplaudem, vejo os campos do Rio Grande, por onde corria livre ainda pequena (o sul sempre foi pródigo em revelar para o resto do país e do mundo beldades como eu). Orgulhosa, ostentava o primeiro brinco ganho, a refletir a claridade do sol. Já era, então, muito vaidosa.
Muito cedo, porém, tive que me separar de meus pais. Meu futuro assim determinava.
Mas não tardaram a aparecer as oportunidades. Inicialmente, fui fotografada para um pôster de divulgação de uma grande feira no interior. A foto chamou a atenção de todos e, logo, já participava de eventos maiores.
E então, vieram as peças publicitárias para televisão.
Meu primeiro comercial, como não poderia deixar de ser, foi sobre moda. Uma grande fábrica de roupas de couro. Eu era a estrela principal. Depois, uma poderosa multinacional do ramo de laticínios solicitou meus serviços. Eu começava a ficar famosa. Aí, entre peças que mostravam tartarugas, peixes e caranguejos, veio o comercial de cerveja. Quem imaginaria, o desejo de todas sendo realizado. Um comercial de cerveja! Foi o passo final para a glória, culminando com a participação, ainda que modesta, em um filme para o cinema.
Por isso sou a atração maior desta passarela. Por isso todos os presentes aguardaram até agora, alta madrugada, para aplaudir meu desfile. Por isso as câmeras me focam. Sabendo dessas coisas, esnobo. Depois do golpe da rebolada, faço questão de ressaltar a perfeição da musculatura de minhas coxas, de minha anatomia privilegiada. Apressando levemente o passo, chocalho com calculado vigor os peitos, que tanto sucesso fizeram nos comerciais televisivos. São realmente belos, todos os quatro.
E então, alguém dá o primeiro lance. Procuro-o de soslaio. Não sei quem é, mas pelo aspecto e pelo valor que oferece deve ser apenas um pequeno produtor interiorano querendo aparecer. Não lhe dou maior importância, continuando com meu desfile pela passarela. Os lances se sucedem com rapidez. Em profusão. O leiloeiro sua abundantemente, gritando exasperado lance após lance. Uma voz forte, porém, propõe a oferta definitiva. Todos os olhares voltam-se para a origem daquela voz possante. Conheço-o. É da região da fronteira, como convém aos grandes fazendeiros. Levanta-se devagar, fitando os circunstantes como a confirmar que venceu a disputa. Silêncio. Dou-lhe uma, grita o leiloeiro. Meu provável novo dono ajeita o bonezinho Kangol no alto da cabeça. Dou-lhe duas, e olha para a platéia. Alguns coçam as faces, em dúvida. Outros sussurram entre si. Dou-lhe três, batendo o martelo. Parabéns ao doutor Godofredo, que acaba de adquirir este belo e rústico puro por pedigree...
Será uma honra, penso, fazer parte de sua famosa cabanha.
Escrito por marcelo às 22h05
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