GRAND FINALE
Arte.
Tudo é arte.
Ou, antes, todas as coisas do mundo podem ser feitas, pelo menos, de duas maneiras diferentes. A melhor delas é a forma de fazer com arte. Se você fuma charutos, por exemplo, deve saber que há duas técnicas para reacendê-los quando apagam espontaneamente. Porque se você fuma charutos deve saber que eles apagam-se sozinhos. Você pode simplesmente segurá-los em posição horizontal e acender a ponta com fósforos ou com um isqueiro próprio para charutos, nunca com isqueiros de fluidos. Esta é a forma comum. Ou você pode utilizar o método Davidoff, rodando a ponta do charuto repetidamente em uma chama até que suas bordas fiquem enegrecidas, após o que você deve dar uma longa tragada, fazendo reacendê-lo. Este é o método com arte. Se você fuma charutos deve saber disso. Ou não fuma com arte.
Tudo pode ser arte.
Cortar a própria orelha, como fez Van Gogh. Morrer bêbado largado em uma sarjeta, como Poe. A loucura é ela mesma uma forma de arte. Alejandro Quijano enlouqueceu de tanto ler romances de cavalaria, tornando-se o fidalgo Dom Quixote de la Mancha.
Eu?
Eu sou um artista.
Sou um mágico. Daqueles que fazem surgir coelhos da cartola e separam em duas suas assistentes. Sempre fiz relativo sucesso em minhas apresentações. Lotei teatros decadentes e rendi muito dinheiro aos promotores dos meus espetáculos. Arrancava aplausos entusiasmados das crianças e dos adultos crédulos. Até o dia em que surgiu aquele sujeito na televisão. Um mascarado que divulgava abertamente todos os nossos truques. Acabou-se a arte. Acabou-se a magia. Passei de artista a alvo de escárnio do público. Minha arte estava inapelavelmente perdida e desacreditada. Todo meu sucesso sempre foi guiado pela reação do público, esse mesmo público que agora a televisão me roubava. Então decidi mostrar a eles. Afinal, a arte é irmã gêmea da loucura. Procurei auxílio na verdadeira Magia, na definitiva Arte. A Magia Negra.
(continua...)
Escrito por marcelo às 22h34
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O batuque dos tambores me devolveu a dignidade. O sangue de um carneiro oferecido em sacrifício, o público. Agora, o sucesso completo dependia apenas de uma vida humana. Era a exigência das entidades que eu conjurara.
O teatro está repleto.
Homens engravatados acompanham senhoras com longos vestidos. Todos sorriem. Minha fama correu mundo. Querem ver com seus próprios olhos o truque do pombo decapitado que, mesmo sem cabeça, voa sobre a platéia. Ou o coelho transformado em serpente. Mal sabem que nada há de engodo em meus números. Não agora.
No grand finale, convido alguém da primeira fila para participar do derradeiro número. É uma bela jovem, de olhos muito azuis e vívidos. Ela sorri ao subir no palco. Faço um gracejo qualquer e aponto a pistola do século de XIX bem para o meio dos olhos. Agrada-me saber que ela não sentirá dor. Então meu sucesso será completo.
Essa é minha arte e minha loucura.
Enquanto o público apresenta reações diversas ao corpo que tomba sem vida – será real? – retiro um Cohiba do bolso e acendo-o calmamente, com muita arte.
Escrito por marcelo às 22h33
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