Kayuá


 

O CASO DO CASANOVA

 

 

         Eu estava podando os galhos do Bonsai sobre a mesa quando ela entrou no escritório. Meus sensores óticos dilataram seus diafragmas. As células olfativas captaram a fragrância de um perfume há muito esquecido. Gardênia, me avisaram os chips de memória. Automaticamente, mostrei meus dentes metálicos.

-         Pois não? Como posso servi-la? – arrisquei o lugar-comum, admirando a vasta cabeleira loura que descia sobre os ombros como uma cascata de fios de ouro.

-         Hammet... É você? – perguntou, apontando com os delicados dedos, de unhas bem tratadas, para a placa holográfica na porta de entrada.

-         Eu mesmo. Hammet, modelo 3043, detetive-robô particular.

-         Preciso que ache meu Casanova!– os pequenos olhos verdes encheram-se de lágrimas sinceras.

-         Dê-me os dados completos, por favor – tentei manter a frieza profissional, assim mesmo alcançando-lhe uma caixa de vapor para secar a face. Mesmo que a maquilagem escorresse, desmanchada pelo pranto, ela parecia cada vez mais linda.

-         Um Casanova modelo 4001, novinho. – Uau, pensei cá com meus teclados, o último modelo de robôs-amantes. Planejados criteriosamente para satisfação das clientes humanas. Não dormem nunca, sobretudo depois de cumprirem sua função principal; não gostam de psicofutebol nem de neurocerveja. E, principalmente, estão sempre prontos a atender as necessidades de suas proprietárias – Ele saiu há uns quinze dias – continuou – dizendo que ia comprar necrocigarros  e não voltou mais. – seu choro sentido fez bater mais forte minhas conexões torácicas.

-         Muito bem – procurei ser firme – são dois mil bushes de adiantamento e mais quinhentos por semana – botei o preço, anotando todas as informações na agenda virtual.

-         Dinheiro não é problema. Ache-o e será muito bem pago. – havia certa malícia em sua voz, reforçada pelo cruzar de pernas – e que pernas! – antes de levantar-se e sair do escritório, deixando atrás de si a lembrança do perfume de Gardênia.

 

(continua)

 

*



Escrito por marcelo às 10h25
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         Não foi preciso investigar muito. O caso era apenas mais um, entre tantos, de infidelidade. Uma falha no sistema dos Casanovas construídos a partir de 4000 – chamado pelos fabricantes de “bug do milênio”, mais uma bobagem oficial – acabou com a memória de fidelidade desses modelos. Como sempre aconteceu, os mais velhos continuam sendo os melhores. Mas, enfim, elas acabam seduzidas pelo design moderno, e dá nisso. Agora era comunicar minha cliente.

 

*

 

         Ela entrou com sua aura de Gardênia no escritório, ainda mais bonita. Alguma coisa em seu jeito de olhar e de ouvir, além do caminhar provocador, me dizia que ela já sabia de tudo.

-         Lamento – comecei, mostrando-lhe as provas da traição no gerador de imagens.

-         Filho de uma cadela venusiana! – ela praguejou – Eu já devia saber!

-         Um triângulo amoroso – expliquei, mesmo que ela não quisesse ouvir – ou, talvez, um retângulo, se considerarmos você. O Casanova fugiu com sua secretária eletrônica que, por sua vez, tinha um caso com o piloto automático de seu Aeroporsche ...

 

         Ela colocou os dedos suavemente sobre meu alto-falante bucal, fazendo-me calar. Com a outra mão, abriu o retrozíper do vestido grená colado ao corpo, deixando-o deslizar até o chão.

           

-         Você terá agora seu pagamento – sussurrou, entrelaçando as pernas em minhas unidades de equilíbrio. Empurrei-a delicadamente, aceitando apenas os bushes acertados previamente.

-         Robôs !!- ela exclamou com desprezo, e saiu batendo a porta.

 

         Resignado, arranquei um galho do Bonsai e comecei a mastigar.

         Talvez ela nunca saiba, mas há muito tempo deixei de comer humanos. 

        

 

         



Escrito por marcelo às 10h24
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