Não foi preciso investigar muito. O caso era apenas mais um, entre tantos, de infidelidade. Uma falha no sistema dos Casanovas construídos a partir de 4000 – chamado pelos fabricantes de “bug do milênio”, mais uma bobagem oficial – acabou com a memória de fidelidade desses modelos. Como sempre aconteceu, os mais velhos continuam sendo os melhores. Mas, enfim, elas acabam seduzidas pelo design moderno, e dá nisso. Agora era comunicar minha cliente.
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Ela entrou com sua aura de Gardênia no escritório, ainda mais bonita. Alguma coisa em seu jeito de olhar e de ouvir, além do caminhar provocador, me dizia que ela já sabia de tudo.
- Lamento – comecei, mostrando-lhe as provas da traição no gerador de imagens.
- Filho de uma cadela venusiana! – ela praguejou – Eu já devia saber!
- Um triângulo amoroso – expliquei, mesmo que ela não quisesse ouvir – ou, talvez, um retângulo, se considerarmos você. O Casanova fugiu com sua secretária eletrônica que, por sua vez, tinha um caso com o piloto automático de seu Aeroporsche ...
Ela colocou os dedos suavemente sobre meu alto-falante bucal, fazendo-me calar. Com a outra mão, abriu o retrozíper do vestido grená colado ao corpo, deixando-o deslizar até o chão.
- Você terá agora seu pagamento – sussurrou, entrelaçando as pernas em minhas unidades de equilíbrio. Empurrei-a delicadamente, aceitando apenas os bushes acertados previamente.
- Robôs !!- ela exclamou com desprezo, e saiu batendo a porta.
Resignado, arranquei um galho do Bonsai e comecei a mastigar.
Talvez ela nunca saiba, mas há muito tempo deixei de comer humanos.