OUTRA VIDA
Quando perguntei pela segunda vez, o médico resolveu separar em sílabas, para que eu entendesse melhor, a-nos-mi-a. Mastiguei aquele hiato e cuspi de volta na cara dele. A-nos-mi-a. Tudo bem. Mas que diabo vem a ser isso, doutor? Ele explicou, ajeitando os óculos sobre o nariz de batata, que era uma alteração caracterizada pela perda do olfato. Detesto esse palavrório dos médicos. Que não sinto cheiro de nada eu já sabia. Não precisava pagar consulta, então. Mas, doutor, de onde vem minha a-nos-mi-a? Ele respondeu, com ar professoral, que a causa podia ser uma infecção, um distúrbio hormonal, um problema dentário ou uma alteração neurológica. Que ia solicitar exames pra descobrir. Mas que eu não me preocupasse, qualquer que fosse a causa não se tratava de nada grave, eu podia confiar nele. Afinal, ele era especialistareconhecidopelasociedadebrasileiradeotorrinolaringologia e a partir daí eu não ouvi mais nada. Peguei o pedido de exames em cima da mesa e fui embora.
O dentista perguntou se alguma vez eu tivera dor de dente, descartando a possibilidade de uma causa odontológica. Nun-ha. O aspirador no canto da boca repleta de algodão. Como é que esse cara quer que eu responda desse jeito? Estou jogando meu dinheiro fora. Pagando gente que me diz coisas que eu já sei. Eu sabia desde que o raio xis, a tomografia e os exames de sangue não mostraram nada. Só que continuava sem sentir cheiro algum.
Ter de tomar café sem sentir o cheirinho adocicado do leite, sabe o que é isso? Admirar a face multicolorida das flores sem saber-lhes o aroma? Tocar a pele acetinada de uma amante sem que o perfume prazeroso do suor e do sexo penetre-lhe narina adentro?
Foi pensando nisso que decidi fazer a regressão através da hipnose. Não que acreditasse muito, mas era o que me restava. Quando não se tem alternativa, qualquer solução parece possível.
O terapeuta me mandou relaxar, fazendo com que deitasse meu corpo sobre um divã. Descansou um pequeno metrônomo em cima da mesa - tic tac - e começou a falar com uma voz monótona. Era pra imaginar um grande campo verde - tic tac - e eu a caminhar sobre o pasto - tic tac. Caminhando. Lentamente. Tic Tac. Agora eu deveria sentir sono, muito sono. As pálpebras começaram a pesar - tic tac, tic tac -, a voz monótona, o ruído monótono sobre a mesa. O terapeuta disse que eu estava caindo - tic tac - e eu me senti ca in do...
Tic tac, tic, tac. Sou criança de novo. Há uma faca em minha mão. Está suja, vermelha de algo pegajoso e fedorento. O cheiro é azedo e insuportável. Dá náuseas. Mamãe me olha com olhos de terror. Papai não está em casa, foi viajar. O corpo nu que jaz a meus pés é de um homem que não conheço. Mamãe chora e se abraça ao corpo sem vida. Não entendo. Ele estava te machucando. Só quis te proteger. Tic, tac, tic, tac.
A voz do terapeuta me traz de volta. Já não sou mais criança. Há um cheiro azedo e vermelho infestando minhas narinas.
Escrito por marcelo às 10h05
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COMO DIZIA RAULZITO
Você tem dois pés para cruzar a ponte, os versos da música ecoam na cabeça desesperada. Os dois pés estão, no entanto, trêmulos sobre a amurada da ponte. Lá embaixo, o rio corre caudaloso e insensível às misérias cá de cima. Outra canção assombra o coração e a mente perturbados. This is the end, my only friend, the end, na voz embriagada de Jim Morrison. Deus! (Haverá deus?) – Ele poderia ser Jim, pelo menos em sua insanidade. Mas hoje Jim está em paz em Père Lachaise, vizinho de Balzac, Delacroix, Proust, Doré e Champolion. Destino grandioso, descansar entre os maiores. Nem isso lhe será permitido. Será, após a queda, o que foi a vida inteira: ninguém.
É de batalhas que se vive a vida, continua martelando a música silenciosa em seus ouvidos. Mas e quando se perde todas as batalhas da vida? Quando a própria guerra da vida é toda ela um só fracasso? Forte eu sou, mas não tem jeito, o prenúncio de sua última travessia. Os olhos embotados de cimento e lágrima divisam o rio lá embaixo, impassível. Pensa que, talvez, o frio das águas sele seu destino antes que a correnteza o faça. Ou a queda. Foi um rio que passou em minha vida. Antecipa o vento beijando seu rosto durante a queda iminente.
Tente outra vez, conclama e instiga a canção. Começar de novo e contar comigo. Mas foram tantos recomeços, todos transformados em insucessos. Recomeçar tem sido, invariavelmente, fracassar. Não. Mais um começo está fora de questão. A lua salpica de estrelas o espelho do rio. Parece um pandeiro de prata a sorrir. Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor. A esperança já não dança mais na corda bamba de sombrinha. Como ele, a esperança já tombou. A decisão já foi tomada.
This is the end – é o fim. Do mundo (meu mundo caiu), da vida, de tudo. Perde-se neste turbilhão, ofimdomundodavidadetudodomundodavidadavidadavida...
Levanta sua mão sedenta e remoça a andar. Um passo à frente. O vento beijando o rosto. A queda. O frio. O rio. A correnteza.
O fim.
Escrito por marcelo às 18h35
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