Kayuá


O ELOGIO DA MENTIRA

 

 

         Encontrei-o no bar onde Henry Chinaski costumava tomar seus porres.

         O surrado chapéu Panamá – ao estilo de Hemingway – escondia os chifres pontiagudos. O capote tomado de Akaki Akakiévich – finalmente soube quem o havia roubado – apertava as grandes asas de morcego contra as costas. Os cascos estavam descalços, mesmo porque seria difícil achar-se botas que os vestissem. E já estava bêbado, mesclando o hálito alcoólico a seu natural odor de enxofre.

         Cumprimentei-o, tirando, por minha vez, o chapéu e o sobretudo, pedindo licença para sentar. Pedi ao garçom uma dose de Glenlivet, com gelo redondo. 

         “Peste e carestia!”, praguejou, repetindo as palavras do huguenotre Ezequiel nos campos de Terralba, e tomou mais um gole de Absinto. Fiquei em silêncio, cumprindo o papel de bom ouvinte. “Ando cansado”, continuou, “de tanta injustiça”.

          Lancei um olhar de dúvida, soltando no ar uma baforada de meu Cohiba.

         “Hoje, todos me culpam pelos males do mundo. Ignoram minha boa intenção quando, por exemplo, mandei que Belfagor, travestido em Rodrigo de Castela, viesse à terra para descobrir o motivo de minha morada receber tantos homens casados. Pobre Belfagor! Até hoje tem maus sonhos proporcionados pela lembrança de Dona Honesta”. Pedi mais uma dose ao garçom, procurando mostrar atenção. “A síntese de minha existência está no que disse ao jovem Fausto, quando me mostrei a ele. Sou parte da Energia que sempre cria o bem. Mas tenho sido conhecido ao longo dos séculos como Senhor do Mal, Mestre das Trevas, Pai da Mentira”. Neste momento, soluçou como se fosse cair em pranto. Mas, astuciosamente, afogou o soluço em um grande gole de sua bebida.  

         “Pai da Mentira”, repetiu, retomando sua linha de raciocínio, “quanta ironia!”.

         “Ironia?”, perguntei, rompendo pela primeira vez minha atitude contemplativa.

         “Ironia, sim”, continuou, “pois meu ofício me foi imposto através de uma mentira”. Engoli uma pedra do gelo redondo, que passou queimando na garganta. “Meu próprio irmão provocou meu exílio, inventando a mentira que eu pretendia tomar seu lugar, banindo-me junto com meus pares. Tudo o que eu quis, e ainda defendo, é dar ao homem total livre arbítrio para decidir livremente sobre seus atos. E veja aonde viemos parar. Primeiro, meu invejoso irmão expulsou seus filhos de seu lar apenas porque eu quis dotar-lhes de conhecimento. E agora, uma vez que o homem parece chegar próximo a meu objetivo, utiliza seu livre arbítrio para sua própria destruição. E todos, indistintamente, culpam a mim”.

         “Talvez”, arrisquei, “ao defender tanto a vontade própria do homem, também tenhas tua parcela de culpa”.

         “É possível”, concordou, “mas não isenta meu irmão das maldades cometidas”.

          Ficamos quietos, cismando e olhando os copos que se esvaziavam rapidamente.

 

         Ao amanhecer, passadas muitas doses e outras tantas filosofias – e como meu companheiro já estivesse completamente embriagado – tomei a velha caleça de praça, como se fora o carro de Apolo, e deixei aquele deprimido e pobre diabo na porta de sua casa, onde seu cão o esperava abanando a cauda e sacudindo com satisfação suas três enormes cabeças.      



Escrito por marcelo às 18h33
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  Rosebud
  O Caixote
  Branco Leone
  Cadernos de Bélgica
  Rafael Duarte
  Blog do Conto
  Agrestino
  Clube das Almas Inquietas
  Maria Helena Bandeira
  Marta Rolim
  Palhaço Bocudo
  Rubens da Cunha
  Plátanos Coloridos
  Digressiva Maria
  Fábio Rocha
  Mudança de Ventos
  Udo Baingo - Água Marinha
  Daisy Melo - Olhos do Sol
  Rapidinhas da OE
  Phlavyus - Tente Outra Vez
  Neurotóxicos - Celina Portocarrero
  Malditas Mulheres
  Diário de Bordo - aventuras de uma gaúcha na terra de R. L. Stevenson
Votação
  Dê uma nota para meu blog