Kayuá


A FLOR E O ESPINHO

 

 

     Cravo era sobrenome. Roberto da Silva Cravo. Quando a turma ficou sabendo, o Betão virou Cravo. O apelido trocado pelo sobrenome. Sempre tinha um engraçadinho, aí, Betão, é uma no cravo e outra na ferradura, hein? e a alcunha foi pegando. Cravo.

 

     O Cravo, atrás de uma muralha de garrafas de cerveja, cantava Nelson Cavaquinho

 

Tire o seu sorriso do caminho

Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho

E espinho não machuca a flor

 

com voz de tenor. Os convivas aplaudiam, faziam coro e mandavam o garçom baixar mais uma. O Cravo inflava o peito e mandava

 

Eu só errei quando juntei minha alma à tua

O sol não pode viver perto da lua.

 

     E a lua ia embora, se escondendo. O sol, como não pode viver perto dela, mostrava a cara quando o Cravo voltava pro barraco, tropeçando nas próprias pernas.

   

(continua...)



Escrito por marcelo às 22h48
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     A Rosinha já tinha dado o ultimato. Os amigos de bebedeira ou ela. Os amigos ganhavam sempre. E ela, vencida, ia ficando. Tratava da bebedeira de seu homem com carinho e coca cola. Perdoava. Ele jurava amor eterno. Pegava a viola e soltava o vozeirão num pedido de Lupicinio Rodrigues

 

Volta,

vem viver outra vez a meu lado

Não consigo dormir sem teu braço

pois meu corpo está acostumado

 

e ela tinha vontade de responder também como Lupi

 

Nunca,

nem que o mundo caia sobre mim

 

mas sempre voltava atrás. Até a manhã seguinte, quando ele chegava em casa caindo pelas tabelas. Aí ela prometia ir embora. Chorava. E ele pegava na viola.

 

     O Cravo chegou no barraco e não encontrou Rosinha. O sol já se espreguiçava lá em cima, sacudindo o sono dos olhos. A casa da mãe. Só podia estar lá. Em todas as discussões, Rosinha ameaçava ir pra casa da mãe. Saiu batendo a porta e cantarolando com a voz embriagada as razões de Paulo Vanzolini

 

Um homem de moral

não fica no chão.

 

    Entrou chutando porta e tudo na casa da sogra. Rosinha tentou argumentar. Fugiu pro quintal. Nada adiantou. O Cravo, enlouquecido, puxou-a pelos braços. Dois safanões, uns quatro ou cinco tabefes e o serviço estava feito. A volta por cima.

     Rosinha caiu de bruços, sangrando a face e a alma.

     Despetalada.

     Ela nunca havia imaginado que espinho pudesse machucar a flor.

 

    

 

 



Escrito por marcelo às 22h29
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CONFISSÃO

 

Finalmente

confesso

meu cansaço.

Penitente,

passo a passo,

passeio

num rumo escasso.

Esqueço

meu curto espaço:

espelho

feito

em pedaços.

 



Escrito por marcelo às 12h26
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