Kayuá


UM DIA DE FÚRIA

 

        Aí vêm eles. Raimundo percebe através da viseira do capacete do Choque as faces angustiadas e famintas. Quase pode tocar em sua revolta. Raimundo, como os outros, bate com os cassetetes no escudo, mandando à turba uma espécie de aviso. Mas não consegue disfarçar seus sentimentos de medo e dúvida. A praça já foi evacuada, desde que a multidão de revoltosos começou a tomar forma. As copas verdes dos ciprestes eclipsadas pelos cartazes de protesto. O breve canto dos pardais emudecido pelas palavras de ordem. A marcha descompassada das pernas enfraquecidas pela fome marcando o ritmo do confronto iminente. As janelas do Palácio do Governo permanecem fechadas, isolando os amplos salões ricamente mobiliados das misérias aqui de fora. Eles avançam.

         Raimundo é jovem. Vinte e cinco anos, talvez um pouco menos. A estrutura física levou-o ao Batalhão de Choque tão logo foi incorporado na força policial. A mesma altura e a mesma rigidez dos músculos que encantaram Mariana. Vê nos olhos da multidão os olhos de Mariana, marejados de lágrimas e postados no pedaço de papel que trazia nas mãos. Como nos treinamentos, o Choque permanece em linha, batendo os cassetetes nos escudos. Agora, no entanto, é real. Aí vêm eles.

         O som metálico das batidas nas panelas vazias, como tambores de guerra, machuca os ouvidos. Mais pelo que representa do que propriamente pelo ruído. É a um tempo súplica e protesto. Raimundo vê, transtornado, os cartazes. E vê as panelas e as faixas, e as faces angustiadas. E ouve a voz da fome e da revolta. Eles continuam avançando, com suas palavras de ordem.

         E, então, Raimundo também vê as pedras. E as garrafas com líquidos de ouro e panos pendentes do gargalo, como se fossem rastilhos prestes a serem acionados. O desespero é péssimo conselheiro, mas a necessidade não tem tempo a esperar. Promessas e discursos não podem ser levados à mesa. Decretos não matam a fome. Votações em salas fechadas não quitam dívidas. Negociatas não devolvem dignidade ao cidadão comum. Então, o desespero. Eles estão próximos.

         Raimundo vê na frustração dos rostos a frustração de Mundinho, na noite de Natal. Não o presente desejado, mas a singela lembrança que foi possível comprar. O menino sorriu um sorriso sem jeito, de compreensão. Papai Noel deve ter se enganado.  A bicicleta pode ficar pro ano que vem, não tem importância. Claro que tem, disse o aperto no peito de Raimundo. Muito próximos.

         Súbito, voam as pedras, catapultadas por braços impacientes. Os escudos protegem o Choque, e a resposta é dada com bombas de gás. A multidão dispersa-se, apenas para reorganizar-se logo à frente. As garrafas são lançadas, gerando línguas de fogo ao quebrarem-se de encontro ao solo. Caos. Agora, quem avança é o Batalhão de Choque, abrindo claros na turba a golpes de cassetetes. Raimundo vai à frente, conduzindo seus camaradas como Moisés abrindo o Mar Vermelho. Vermelho como sangue.    

         O medo de Raimundo dá lugar a um ódio irracional. Cego, ele desfere golpes a esmo. Empurra com o escudo, golpeia o ar com o cassetete. Até que sente um baque surdo. Uma resistência rígida contra o braço que bate indiscriminadamente. Percebe que golpeou a cabeça de um manifestante. Um tênue filete rubro desce pela face transfigurada, que o encara com espanto. É tão jovem quanto ele. Mais um golpe.

         Mais um golpe. Os olhos espantados lembram os olhos chorosos de Mariana, a ordem de despejo nas mãos. Três meses de atraso no aluguel. Mal deu pra pagar a luz e a água. Telefone já cortaram. Melhor assim, pelo menos pararam as ameaças. Ser vizinho de bandido, trabalhando na polícia, dá nisso. O jovem cai, os braços tentando inutilmente  fazer a proteção do crânio. Outro golpe.

         Outro golpe. Raiva. Os braços fletidos do jovem caído lembram Mundinho na cama, na noite de Natal, com as mãos nos olhinhos para esconderem a vergonha, o pai espiando pela fresta da porta entreaberta. Ele chora também, em silêncio, pro menino não ouvir. Ele chora e bate de novo, e mais uma vez.

         E mais uma vez. Até que o manifestante não se mova mais. A seus pés, uma pasta ensangüentada e inerte. Ele olha em volta. Ainda há conflito. Fumaça das bombas e fogo das garrafas se misturam. Gritos de ódio e de dor onde antes havia o rumor da fome e a reivindicação da dignidade. Volta a olhar para seus pés, os coturnos tingidos de vermelho.

         Ali jaz um Raimundo como ele, talvez com uma Mariana a esperá-lo. Com um talvez Mundinho que jamais voltará a ver o pai, e que cairá de bruços sobre a cama, braços fletidos a esconder o rosto, sabendo que de agora em diante nunca mais haverá Natal.



Escrito por marcelo às 10h21
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DE SACO PRA MALA

Mudando um pouco a característica do Kayuá, onde procuro divulgar textos ficcionais próprios em prosa e verso, estou iniciando uma outra linha, que virá para dividir o espaço com contos, poemas e, talvez, crônicas, em que a idéia principal é a discussão sobre o fazer literário, a criação. Começo com um trecho de Osman Lins (1924-1978), do livro "Guerra sem Testemunhas":

,"Quando a literatura, num homem, é ainda uma atividade cuja natureza ele não apreende com clareza e cujos fins lhe escapam; quando ele não tem uma concepção global (ainda que precária) do mundo – seria incorreto, a rigor, falar-se de projeto. Para ele, a obra é qualquer coisa de extremamente vago e sem contornos. E o paradoxal é que, através de muitos descaminhos, improvisações e recuos, ele pode até chegar a concluí-la – mas não a planejá-la. Quando muito, tentará um esquema, e um esquema não é um plano. Na verdade, ele está distante do plano como um simples gesto ritual (cujo verdadeiro sentido se perdeu) distancia-se do gesto vivo, compreendido. (...)

A obra executada na imaturidade está para a verdadeira obra como o esquema está para o plano: falta-lhe significação. Ninguém realiza obra válida antes de alcançar, como escritor e como homem, um grau de sabedoria que lhe permita conceber – no papel ou no espírito – um plano para a obra a ser realizada. Executar uma obra está diretamente ligado a concebê-la; e concebê-la quer dizer empreendê-la com clarividência, atribuindo-lhe um plano que seja ao mesmo tempo as balizas de um roteiro a ser executado e uma súmula de seu conteúdo espiritual".


l

 



Escrito por marcelo às 16h08
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