Kayuá



A MUSA


 

         O frio é pior que a fome. A fome você pode enganar com a bebida. O frio, apesar da queimação que a bebida lhe causa por dentro, não pode ser enganado. O vento lhe corta os ossos e as carnes, assoviando em seu ouvido um canto de morte. Então você procura abrigo.

         Por exemplo, agora. Você está em um parque, uma muralha de ciprestes e cercas-vivas lhe protegem do vento.  Mas, sem teto, a garoa fina molha continuamente sua cabeça descoberta, gelando corpo e alma. Você toma mais um gole, na vã esperança de que o calor que desce garganta abaixo aqueça também os braços e as pernas, o peito, a cabeça. Nada. O frio é um assassino calculista. Vai minando aos poucos. Você deita seu corpo embriagado sobre um colchão de flores e folhas. Puxa para si um cobertor feito de notícias velhas. As páginas dos jornais aquecem um tanto. Então você lê, em seu travesseiro, os versos que você fez há muito tempo, quando ainda não dormia nos parques sobre um colchão de flores. Você era um poeta. Mas a musa morreu de fome e você agora morre aos poucos de frio. E os versos que o jornal enaltece não têm a sua assinatura. Veja só, você não tem sequer a sua poesia. Quando você era um poeta, levou a muitos editores os seus versos. Foi elogiado algumas vezes, mas sempre lhe diziam que poesia não vende ou que não era a linha editorial da empresa. Você insistiu. Enviou originais. E a musa ia definhando. Agora sua poesia faz sucesso nas páginas de cultura, mas a autoria é atribuída a um outro qualquer. Certamente um daqueles editores que lhe deu um tapinha nas costas dizendo que você é bom meu rapaz, pena que a editora não publique poesia. Então sua poesia serve agora para proteger do frio, mas com outra identidade. Mas o frio é calculista. Você toma outro gole. Ele é mais forte. Você vê a musa deitada a seu lado. Você quase se sente feliz, agora que tem a musa morta de fome e sua poesia a aquecer seu corpo.

         Pronto.

         Agora você já pode morrer.



Escrito por marcelo às 13h29
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