SE UM VIAJANTE NUMA NOITE DE INVERNO
Lançado em 1979 por Italo Calvino, o livro "Se um viajante numa noite de inverno" é um delicioso tratado de semiologia literária travestido de romance. Prova disso é o trecho retirado de seu "Capítulo 8", aqui transcrito:
"Na parede diante de minha mesa está pendurado um pôster com que me presentearam. O cachorrinho Snoopy está sentado diante da máquina de escrever, e no balão se lê: "Era uma noite escura e tempestuosa...". Toda vez que sento aqui, leio "Era uma noite escura e tempestuosa..." e a impessoalidade desse incipit parece abrir-me a passagem de um mundo a outro, a passagem do tempo e espaço do aqui e agora ao tempo e espaço da página escrita; sinto a exaltação de um início ao qual poderão seguir-se desdobramentos múltiplos e inesgotáveis; convenço-me de que não há nada melhor que uma abertura convencional, nada melhor que uma abertura da qual se possa esperar tudo e não se possa esperar nada; sei também que esse cachorrinho mitômano nunca conseguirá acrescentar a essas seis primeiras palavras outras seis, ou doze, sem quebrar o encanto. A facilidade de acesso a outro mundo é uma ilusão. As pessoas se lançam a escrever porque antecipam a felicidade de uma leitura futura, e o vazio se abre na próxima página em branco.
Desde que tenho esse pôster diante dos olhos, não consigo terminar nem uma página. É preciso arrancar o mais depressa possível o maldito Snoopy da parede; entretanto, não me decido; esse cachorro imbecil se tornou para mim um emblema da minha condição, uma advertência, um desafio".
Cada um de nós - que nos pretendemos escrivinhadores - temos nosso Snoopy particular. Obrigado, Calvino.
"Se um viajante numa noite de inverno", Companhia das Letras, 2ª Edição, 2003
PS - Obrigado, Tânia, pela gentileza.
Escrito por marcelo às 21h44
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