O VELÓRIO DE DEUS
“Deus, que será de ti, quando eu morrer?”
(Rainer Maria Rilke)
A sala velatória tem pouca iluminação, como convém ao ambiente. No centro, o luxuoso caixão dourado é emoldurado por coroas e velas. Júpiter, comovido, olha para o corpo sem vida.
“Coitado, era tão jovem”.
Ganesh concorda com a enorme cabeça, enquanto se serve de um canapé com a larga tromba, afugentando com as orelhas as moscas que tentam se aproximar.
“Quando o conheci, ainda engatinhava. É verdade que tivemos nossas diferenças, mas era um bom rapaz”.
“Depois que morremos”, pensou Zeus, fitando Júpiter como se olhasse a si mesmo refletido na superfície de um espelho, “todos somos bons”.
Como naquela sala pensamentos não são segredos a ninguém, a frase de Zeus foi ouvida por todos.
“Verdade”, concordou Alá. “Eu bem sei de coisas horríveis que ele fez em vida”.
“Quem, dentre nós, não tem os seus pecados?”, interveio Xangô, precedido pelo som de um trovão.
“Meu povo foi perseguido e morto em seu nome”, falou, a um canto, o tímido Tupã.
“Também o meu”, disse Alá, “e a custas de muito sangue inocente”.
“Seu próprio povo, em verdade, sofreu em seu nome”, lembrou Odin. “Não esqueçamos o Santo Ofício”.
Rá, que até então permanecera apenas observando, também deu sua impressão. “Ora, lembremos, ainda, que sacrificou seu filho único em benefício próprio”.
“É inerente a nosso ofício”, começou o velho Pachacámac, “que façamos com que os seres tenham temor a nós. É preciso, para isso, que mostremos, às vezes, nosso poder e nossa ira”. Yakshi no Kami, de braços com Amaterasu, balançou negativamente a cabeça, discordando.
(continua...)
Escrito por marcelo às 09h33
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Em um canto escuro da sala, uma figura isolada soluça baixinho, de modo a não ser percebido. A tênue fumaça que se eleva das inúmeras velas esconde o cheiro de enxofre que emana desta sombra.
Subitamente, a porta se abre com violência, silenciando a discussão. Entra um ser pequeno, menor que todos, nu, a caminhar trôpego sobre suas duas patas, vertendo água dos olhos escuros. Aproxima-se do caixão, dirigindo-se ao defunto que ali jaz. “Expulsaste-me do Paraíso. E, ainda assim, continuei contigo. Fizeste, depois, com que meus filhos sofressem em teu nome. Mas não te abandonei. Lançaste à minha gente pragas e castigos, transformando uns em estátuas de sal, a outros afogando com as águas do dilúvio. E permaneci a teu lado. Mandaste a nós o teu filho, apenas para que sofrêssemos com ele. Derramaste com freqüência o sangue pela terra, jogando irmão contra irmão. E nunca me afastei de ti. Mas cresci, e aí parece que tu decidiste me abandonar. Hoje vejo guerras – piores e mais letais que qualquer das que vi em minha longa existência – fome, miséria, podridão – da carne e do espírito – horror”. E, sem aviso, desfere uma sonora bofetada na face morta, e chora. Logo, beija a face que acabara de agredir, fazendo um carinho nos cabelos alvos. E sorri.
Surpresos, todos presenciam a estranha cena.
“Quem é este que ofende o falecido?”, pergunta Cernunnos, intrigado.
“É o Homem”, responde baixo Belenos, “seu Criador e assassino”.
Escrito por marcelo às 09h32
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