EX LIBRIS
Até o final do dia terei matado um homem.
Não sou assassino. Nunca, até hoje, sequer toquei em uma arma. Agora, no entanto, é preciso que eu o mate. Minha honra depende de minha desgraça.
Sou escritor. Comecei minha carreira literária como muitos, através da participação nos concursos de textos que pululam por aí afora. Não posso ser chamado de gênio, mas tenho meu valor como literato. E não sou eu a dizê-lo, mas todos os que tiveram contato com minha obra, além das cifras que sua vendagem proporcionou. Reconhecimento pessoal, no entanto, jamais cheguei a ter. Porque meus textos sempre foram escritos sob pseudônimo. Desde o princípio, quando os regulamentos daqueles concursos literários assim exigiam. Ganhei alguns, em outros fiz bela figura, colecionando participações em antologias de nível nacional e mesmo internacional. Mas sempre sob pseudônimo. Até que uma fotografia de jornal estampou meu rosto, quando do primeiro prêmio no estrangeiro, mas a legenda trazia o nome falso. Assim consolidei minha carreira, erguendo um monumento à falsidade e à mentira. Fui colunista do mesmo periódico, mas, por exigência do diretor, assinando meus artigos com o nome fantasia, aquele com o qual ganhara o concurso. Protegido pelo anonimato, ganhei algum dinheiro com minha arte, em revistas e páginas na internet. Até o primeiro livro impresso. Para surpresa de meu editor – um arrogante jornalista novo-rico, jovem e obeso – foi um sucesso editorial. Talvez pela qualidade de meu texto, quiçá pela fama alcançada nos concursos, quem sabe pela legião de leitores que conquistei com o tempo e com o suor, nas páginas reais das revistas e virtuais dos computadores. Certamente pela assinatura que trazia na capa, o nome do meu outro. Várias edições, todas esgotadas. Novos prêmios em velhos concursos. E entrevistas. Mas nunca, jamais, com meu verdadeiro nome. O maldito pseudônimo também foi exigência do editor baixinho e gorducho. Dei tanto dinheiro a ele que logo surgiu o segundo livro. E, ato contínuo, o terceiro e o quarto. Mas eu não era eu. A criatura sobrepujava o criador. Minha obra não era minha, era do outro. Meu pseudônimo virara uma grife literária. Fenômeno de vendas. Setenta e duas semanas entre os mais vendidos, com três títulos diferentes – e sem apelar para a auto-ajuda!
Até que decidi – serei eu mesmo!
(continua...)