BONECOS
Foi mamãe quem me ensinou a fazer os bonequinhos. Assim: primeiro, eu picotava pedaços de jornal dentro de uma bacia com água, misturava água sanitária e deixava de um dia pro outro; aí, escorria a água, mas sem espremer o papel, juntava farinha de trigo até formar um tipo de massa e arrematava com cola. Pronto: agora era só modelar; então eu ia criando os corpos, os braços e as pernas, as cabeças. Mamãe sempre elogiava meus bonequinhos.
O primeiro deles eu batizei Juca. Porque o Juca de verdade me chamou de bruxa na escola. Eu nem reclamei pra professora, mas puxei o cabelo dele como se estivesse me vingando. Estava era pegando alguns fios pra botar no bonequinho. De noite, em casa, com o cabelo já posto na cabecinha de papel maché, eu derrubei o boneco de propósito e fiz com que quebrasse uma das pernas. No dia seguinte, a professora avisou que o Juca, coitadinho, não viera na aula porque quebrara a perna num jogo de futebol. Quando ficou sabendo, mamãe me deu um beijo e fez bolo de chocolate pra mim.
A Sara gostava do mesmo menino que eu. Então fiz um bonequinho e botei o nome dela. E pintei todo o corpo com pontinhos vermelhos. A Sara baixou no hospital com mais de quarenta de febre. Mamãe riu e disse que eu estava ficando cada vez melhor.
A Rita eu fiz vomitar cinco dias, até que só saísse sangue pela garganta; Toni teve que deixar a cidade, depois que os médicos precisaram operar pra retirar a garrafa de coca cola do intestino. Mamãe me repreendeu. Eu estava exagerando, ela disse.
Eu não liguei, mas quando a Bianca me deu um tapa no rosto, fazendo sangrar meu nariz, a raiva foi tomando conta. Era pra exagerar? Então eu ia exagerar! Não foi difícil conseguir o cabelo pra colocar no bonequinho. Depois da aula de natação, foi só verificar dentro da touca de mergulho. À noite, quebrei o pescoço do boneco que apelidei de Bianca.
Três dias depois, por toda a escola se lamentava o acidente tão trágico. Bianca era excelente nadadora, como pudera errar o salto do trampolim de um metro? Fatalidade, diziam. O velório foi o mais concorrido na história da cidade.
Pela primeira vez, mamãe me bateu. Forte. Mesmo assim, machucou mais a alma do que o corpo. Nunca poderia imaginar mamãe me batendo. E me proibiu de fazer bonecos.
Agora, mamãe está dormindo. Ela nem vai sentir a tesoura cortando levemente um cacho de seus longos cabelos que já começam a tomar a cor do tempo.
Escrito por marcelo às 21h11
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