DE SONHOS E VERSOS
Dia desses, discutia-se em uma lista a criação ficcional tendo os sonhos como inspiração. A escola surrealista, iniciada na terceira década do século passado por André Breton, levou aos extremos essa questão. Elevando o inconsciente à condição extrema de inspiração ao processo criativo, os surrealistas focaram nos sonhos seus esforços artísticos. Afinal, segundo titio Freud, o que são os sonhos senão a máxima manifestação do inconsciente?
Sobre isso, há um tercho fantástico no conto "O Assalto", do angolano José Eduardo Agualusa (em seu livro "Manual Prático de Levitação", Editora Gryphus, 2005):
"(Uma noite sonhei que um gato, grande como um boi, me segredava um verso. No meu sonho era um verso extraordinário. Tudo o que tinha escrito antes, desde os meus vinte anos, não valia aquele verso. Lutei para acordar. Acreditei que me levantava, várias vezes, para logo descobrir que continuava mergulhado nas águas fundas do sono. Finalmente consegui abrir os olhos, sentei-me na cama, encontrei um lápis na mesinha de cabeceira e rabisquei o verso na capa de um livro - The Big Sea, de Langston Hughes. Acordei na manhã seguinte com a boca amarga e o sentimento inquietante de que alguma coisa de assombro havia acontecido. Lembrava-me do sonho, do gato pastando num prado imensamente verde, mas não do verso. Felizmente, tinha-o escrito. Agarrei no livro e li: "o dia estava tão cheio de cebolas") (...)"
Escrito por marcelo às 10h30
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