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POETRIXES
Genesis
No princípio
era
o verso.
Semântica
No espelho
um palíndromo
de mim.
Epitáfio
Uma página em branco -
Aqui jaz
mais um poeta.
Escrito por marcelo às 15h51
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CLANDESTINO
O temporal que começou a se formar até que serviu para alguma coisa. As grossas nuvens carregadas ocultaram o sol, facilitando minha fuga. Os fazendeiros, irados, perseguiram-me até a boca deste matagal, mas, com sua visão dificultada pela idade e pela escuridão artificial, desistiram de entrar no emaranhado de árvores, espinheiros e folhas apodrecidas atrás de mim. Devem ter pensado em preparar uma tocaia em minha saída, mas não pretendo dar-lhes este prazer. As dificuldades que enfrentei em toda minha vida ensinaram-me a sobreviver em situações precárias. Creio, em verdade, que posso agüentar ainda por muitos dias nesta pequena floresta, alimentando-me de seus frutos e bebendo a água da chuva que ameaça cair sem trégua.
A primeira lembrança que tenho de mim mesmo é o azul ofuscante das águas do rio onde, ainda criança, banhava meu corpo. Não recordo as figuras de pai e mãe. Como se eles nunca tivessem existido. Quem cuidava de mim era Josafá, o ladrão. Sempre contou que me achara abandonado em um estábulo, entre palhas e estercos de vacas e porcos. Sim, era ladrão, mas não era desumano. Daquele momento em diante, dedicou sua vida a zelar por mim. Mais do que me ver crescer saudável, a custo de muito leite de cabra roubado, com o tempo também tratou de ensinar sua arte. Assim como o marceneiro ensina a seu filho o ofício de criar estantes e mesas e cadeiras, Josafá passou a ser meu professor de roubo. Já com três anos de idade cometia pequenos furtos, desde ovos surrupiados nos galinheiros até roupas deixadas nos varais a secar no vento. Desta forma conseguíamos sobreviver. Aos dezesseis anos, atrevi-me a roubar um vendilhão na porta de um templo. Identificado, passei a ser perseguido por uma pequena multidão – como acontece agora – pelas ruas e vielas. Josafá se entregou em meu lugar, sendo levado a ferros por um pelotão da guarda local. Ninguém reclamou a troca do acusado. O que todos queriam era um culpado. Depois disso, nunca mais o vi. Sozinho no mundo, a necessidade fez com que, cada vez mais, eu me especializasse em minha labuta. Passei a roubar carroças. Revendia-as para um negociante desonesto a um preço quatro vezes menor do que aquele que ele aplicava a seus clientes. Enriqueceu às minhas custas, acabando por montar um negócio de compra e venda de escravos no litoral, deixando-me sem ter a quem vender o fruto de meu trabalho. Precisei diversificar. Passei a roubar gado e vender aos fazendeiros da região, como se eu mesmo fosse um criador. Até ser descoberto. Por isso me perseguem agora. E por isso estou escondido neste matagal úmido e fedorento, a espera da chuva torrencial que logo começará a cair, talvez afugentando meus perseguidores.
*
Os primeiros pingos chegam fortes, vigorosos. Aqueles que escapam da carapaça das copas das árvores caem abrindo um pequeno rombo no solo arenoso da floresta e provocam dor ao contato com a pele castigada pelo sol em minhas costas. Preciso achar um abrigo dentro deste labirinto de troncos e cipós. Ou a chuva se tornará um flagelo difícil de suportar. Não consigo nem mesmo acender uma fogueira. Os galhos todos estão molhados ou são verdes. Além disso, a fumaça poderia denunciar minha posição. Penso, no entanto, que os fazendeiros já não esperam mais minha saída deste esconderijo. Não valho uma tocaia numa tormenta dessas.
Consegui proteção dentro do caule de uma velha árvore no centro da floresta, mas estou faminto. Os frutos palatáveis encontram-se nos galhos mais altos e todos estão úmidos demais para que eu possa escalá-los. A meu alcance, apenas frutos podres ou bichados. Mesmo as pequenas caças, as lebres, os pássaros e os cervos, sumiram com o aguaceiro. Fecho os olhos e tento dormir, como forma de esquecer a fome.
Acordo sobressaltado, faminto e com frio. Sonhava com uma voz possante que falava algo sobre a chuva. Ao despertar, percebo que era o som dos trovões que me fazia ouvir tal voz. Saio de meu abrigo de folhas e madeira, encharcado, a fim de procurar algo que possa ser ingerido. Raízes, talvez. Surpreso, constato que a água da chuva já forma um pequeno charco no matagal. Meus pés estão submersos. Em verdade, quanto mais avanço, o lago lamacento em que se transformou meu esconderijo vai atingindo até a altura dos joelhos. Preciso sair daqui. Não poderei achar raízes com toda esta água. De qualquer maneira, os fazendeiros já se encontram a esta hora no aconchego de suas casas, aquecendo os pés à beira do fogo.
(continua...)
Escrito por marcelo às 09h31
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É difícil divisar a paisagem fora da floresta, para onde me arrasto com certa cautela. A escuridão permanece, produto das nuvens pesadas que há muito ocultam o sol. O vento gélido fustiga a face, fazendo brotar lágrimas dos olhos. Com dificuldade, caminho a esmo pela planície inundada. Os passos tornam-se infaustos pela resistência das águas, que agora já chegam em minhas coxas. Devo procurar alguma elevação, uma rocha ou um monte, onde possa me abrigar. De repente, como em resposta a minha angústia, um bem-vindo relâmpago ilumina a geografia logo em frente. Um monte. Um pequeno monte que pode ser minha ilha de salvação. Com um pouco mais de esforço, consigo chegar a ele. Exausto, procuro descansar recostado a uma sarça no topo de meu monte salvador. Mais um relâmpago. Este me permite perceber uma grande silhueta a alguns côvados dali. Parece um castelo, não consigo ver com clareza. Tenho que chegar até ele, mesmo que minhas forças estejam se esvaindo. Tomo fôlego e corro desesperadamente na direção do pretenso castelo. Bem a tempo. Um terceiro raio cai justamente sobre onde me encontrava, fazendo arder a sarça que há pouco servira de abrigo.
Bendita ironia. Ao aproximar-me da grande sombra, percebo que não é um castelo, como pensei, mas um fantástico barco. Uma nave enorme. Tão grande ou até maior que os prédios das prisões para onde devem ter levado Josafá. Como existe um certo tumulto na proa, do qual não consigo identificar o motivo, caminho furtivamente até a parte posterior da nau. Com minha habilidade de ladrão, não encontro dificuldade para escalar, tábua a tábua, a imensa popa de madeira.
Seguro, aquecido e seco, embora faminto, consigo adormecer em uma pequena cela no interior do navio. (continua...)
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Escrito por marcelo às 09h29
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Não sei ao certo por quanto tempo terei dormido. Talvez dias. Percebo, pelo movimento que sinto, que estamos navegando. É possível até mesmo que tenhamos alcançado o mar. Noto, ainda, que a chuva permanece forte lá fora. O ruído dos pingos contra as paredes do barco é ensurdecedor. Mais alto, no entanto, é o ronco assustador que sobe de minhas entranhas. A fome. Quase havia esquecido dela, como se isso fosse possível. Devo me arriscar e sair desta cela minúscula em busca de alimento. Vejo que a sorte tem me acompanhado. Uma pequena janela em uma das galerias me mostra que é noite. Meus anfitriões devem estar dormindo. Engatinho sorrateiramente até uma grande porta. Encostando o ouvido na madeira, certifico-me que não há ninguém do outro lado. Silêncio absoluto. Com extrema cautela, empurro a pesada porta. Ela cede. O que vejo é uma confirmação de que a sorte tem sido, efetivamente, companheira fiel. O amplo salão que se desvenda além da porta se revela um verdadeiro celeiro. Frutos, de todos os tipos e em grande quantidade, acondicionados em imensos tonéis. Grãos. De todas as texturas e sabores. Raízes. Legumes. Carcaças de galinhas. Cortes diversos de carne, de animais de todos os tamanhos, conservados no sal. De uma pequena lebre a um grande vacum, há de tudo. Estou no paraíso. Queria que os fazendeiros pudessem me ver agora. Descubro um galão de vinho. Enquanto preparo meu banquete, com os sentidos a postos para não ser surpreendido, penso em Josafá. Como estará passando? Certamente a pão e água, no cárcere. Sinto uma mescla de remorso e saudade, logo abafada pela satisfação de saciar a fome de dias. Retorno com cuidado a meu catre, e volto a deitar sobre o colchão de palha. O sono que chega desta feita é calmo, sereno como o deslizar deste imenso navio sobre as águas.
(continua...)
Escrito por marcelo às 09h28
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Ainda não vi a tripulação. São reservados. Não conversam muito entre si. Perdi a noção do tempo transcorrido. Ignoro se estamos navegando há dias, semanas, meses ou mesmo anos. A chuva parece continuar forte, fustigando nossa nau, que semelha, às vezes, estar à deriva. Felizmente o salão que serve de celeiro pode fornecer provisões ainda por muito tempo. Na fartura de seus galões, ninguém perceberá a porção ínfima que diariamente me serve de ração. Tenho descansado durante o dia, guardando a noite para a alimentação e para minhas expedições pela gigantesca nave. Bem sei, de ouvir falar, qual é o destino de clandestinos descobertos.
É curioso. Em todas as minhas incursões noturnas pelo interior do barco, jamais encontrei um só rato ou uma mísera ratazana. Essas pragas são comuns em embarcações deste porte, sobretudo onde abunda o alimento, os queijos, os grãos e os pães. Em casos de naufrágio, são os últimos a abandonar o navio.
*
Creio que estou em um navio assombrado! Não sei se foi a fome inicial, e a fraqueza, que não me permitiram perceber, nos primeiros dias, os gritos e urros medonhos que vêem das galerias mais profundas. É como se mil almas em desespero procurassem sua redenção. Por vezes são uivos. Por outras, ganidos. E rosnados. Balidos. São sons que parecem saídos das profundezas mais fétidas do inferno. Começo a temer por minha vida.
(continua...)
Escrito por marcelo às 09h27
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Hoje, desgraçadamente, descobri porque não há ratos no navio. Ao retornar da ceia, arrastando-me no chão para não fazer barulho, como sempre, toquei com a ponta dos dedos em algo frio e pegajoso. Levei-o à luz da tocha que ilumina a galeria, presa à parede. É uma pele de serpente! Uma cobra nojenta e perigosa que, dia a dia, tem convivido comigo. Talvez, até mesmo, sob meu surrado colchão de palhas. Por isso as pragas não existem nesta nau. Serviram de alimento a este abjeto animal. E agora, que já não vivem mais para encher sua insaciável pança, quem sabe não virá atrás de carne humana? De uma vez por todas, é preciso que atraquemos logo. Os fantasmas dos porões e esta víbora que me espreita em breve poderão reclamar seu prêmio.
Hoje, também, pela primeira vez avistei o capitão. Após o susto inicial com a pele da serpente, decidi voltar a meu catre. Uma picada de víbora traz morte mais rápida e menos dolorosa do que ser atirado aos monstros marinhos, castigo certo de quem é descoberto na clandestinidade. Já quase à porta de minha cela, ouvi resmungos que vinham da proa. A curiosidade foi maior do que a prudência, e resolvi espionar.
Esgueirando-me pelas sombras, chego oculto até o convés. É noite alta e, aleluia, já não chove mais. Grossas nuvens azuladas refletem o brilho da lua. O capitão conversa com um interlocutor invisível. Certamente está louco. Briga. Pragueja. Depois, contrito, pede perdão e cai de joelhos. É um homem em idade avançada. Curvado sobre o próprio tronco, parece que o peso dos anos e a longa barba branca são fardos pesados demais para que os possa carregar. E, então, cai de bruços e chora. Percebo que é hora de me retirar, mas a imagem do velho soluçando permanece por muitas horas em meus olhos cansados.
A ousadia da noite anterior toma volume e me faz visitar novamente o convés. Desta vez, vou durante o dia. Quero conhecer os demais integrantes da tripulação que, sem o saber, salvaram minha miserável vida. Estão todos a contemplar o céu, agora limpo e de um azul violento, que fere os olhos. Parecem desapontados. Há algumas mulheres, e pode-se dizer que são bonitas. São, em verdade, além do velho capitão, três casais. A frustração estampada nas faces faz com que desistam de sua vigília, e voltam-se para onde estou. Rapidamente retorno a meu refúgio. Por muito pouco não viro almoço das feras inomináveis que habitam o fundo dos mares.
Depois de estar próximo de ser descoberto, decido permanecer por alguns dias recluso em minha cela. As inspeções preliminares mostraram que a cobra não está aqui comigo. Deve ser de alguma espécie andarilha. Estou seguro na escuridão de meu catre.
(continua...)
Escrito por marcelo às 09h24
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A fome aperta novamente, fazendo parecer que a temida víbora enlaça meu estômago. Preciso sair de meu esconderijo. Noto a ironia que tem sido minha existência. Sempre fugindo. Sempre escondido. Josafá preso em meu lugar. Meu exílio na floresta. Agora, o esforço para não ser descoberto em um navio gigantesco com uma tripulação de insanos, que falam sozinhos e ficam por horas a contemplar o firmamento vazio.
A caminho do salão dos alimentos, onde já começam a escassear os víveres, não resisto a mais uma espiadela no convés.É dia novamente. Estão todos, ainda uma vez, a olhar para o azul profundo, como à espera de um sinal. Súbito, agitam-se. E abraçam-se. E apontam, risonhos, para o céu. E dançam. Forçando a vista, percebo um pequeno ponto branco a mover-se no céu sem nuvens. E vai tomando forma. É um pombo. Traz no bico um ramo verde. Sinal de terra. À distância, parece tratar-se de um galho de oliveira. Compartilho a alegria de meus salvadores. Poderemos, finalmente, atracar o barco. Deixarei para trás, como lembrança, serpentes, fantasmas, fome e fazendeiros irados. Se me fosse permitido, participaria da festa que certamente os casais farão à noite. Em meu cubículo, adormeço e sonho que estou com eles.
*
Atracamos. Tantas foram as águas, que a nau gigantesca fez seu porto no topo de um monte. Aproveito a alegria da tripulação para fugir à terra firme. O capitão bebe vinho, manchando as alvas barbas de um rubro tinto. Está embriagado. Os demais se preocupam com sua segurança e com organizar a descida da carga.
Corro desabaladamente pela estepe. Não quero ser descoberto, mesmo que os monstros marinhos pareçam agora uma ameaça distante. De longe, ainda dou uma última olhada para a arca que foi meu lar e prisão durante tanto tempo. Os fantasmas que ouvi nas noites insones nada mais são que animais. Vários, diversos deles deixam aos pares o barco. Ordeiramente. Volto os olhos para a imensidão seca à minha frente e corro até desfalecer, sem nunca mais olhar para trás.
Escrito por marcelo às 09h22
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