Kayuá


TESTAMENTO

Nada tenho de meu

além do relicário

das palavras;

nem desejo mais

que a saciedade

do verbo.

Porque

não tenho

a solidez do gesto,

busco

na fonte

a solidão do verso.

 

marcelo d´ávila



Escrito por marcelo às 22h06
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Curuminha

O rio. Sempre o rio, sinuoso, correndo lascivo e sem pressa. Ela perambula pela margem, curuminha perdida e parida no leito do Negro, ninada pelo seu murmúrio, amamentada com sua água. Afilhada da Iara traz na boca o gosto do cajá, nos olhos os igarapés, no andar a onça pintada. A noite se faz escura, tão escura quanto o rio, noite e rio, rionoite, amalgamados. São um só, ambos negros, são mutantes, cintilantes, rio bicho, rio estrela, rio macho, pai do Boto e das curuminhas que vagam na noite.


- Vem, curuminha, se perder às minhas margens. Vou lamber teu cio; levante a saia e abre as pernas, espoje na areia fina, espume entre as coxas e uive de gozo.


O rio se insinua e ela olha, no fundo das águas escuras, todas as formas de ardores recolhidos, a miragem, a euforia que traz no corpo. Quando a noite vai mais fundo e a madrugada pipila com as aves da noite ela vê o homem que sai das águas, nu e moreno, faíscas do Negro na pele, vidente dos seus desejos. As águas rodopiam, se tornam abraços quentes, olhos de estrela, boca candente a devorá-la. A areia branca é leito dos desvarios, do abrir das pernas do escorrer da espuma, do ranger dos dentes. O Boto saliva em suas orelhas, afaga os ombros e lhe baba o sexo entre o gorgolejar da boca e o piar das aves. Dedos d’água penetram em seus cabelos, titilam os seios e lhe invadem o ventre. A cada gemido dela ele murmura e a engole mais e mais.


Quando o rio se recolhe, vazante e apaziguado, o Boto cicia, suave, marulha nas pedras, e vai embora.


*************************************************************************

Essa belezura de conto - regionalista e universal - é da autoria de Vera do Val (www.rosebud.rose.bud.zip.net), escritora fora-de-série e querida amiga; se Livramento não fosse tão longe de Manaus, estaríamos lá - eu, Bubi e a Prenda - pra comemorar seu aniversário, com pato ao tucupy e picanha...regado a um bom Carmenère chileno. 



Escrito por marcelo às 10h08
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