O ÚLTIMO APITO
(livre e levemente inspirado em "Uma noite de outono", de Máximo Gorki)
Desde que a fábrica fechou as portas, Natacha tem procurado comida pelas areias da praia. A boca do filho busca em vão resquícios de vida nas tetas ressequidas.
Então, desaba a tempestade. Natacha e o menino abrigam-se sob a proteção de uma velha canoa emborcada. O vento atravessa frestas na madeira, gelando ossos e almas. Natacha abraça o menino. No entanto, trabalhou a vida inteira na fábrica; nada sabe das marés. À tardinha, quando a chuva recrudesce, as águas do mar invadem a areia. E Natacha já não tem forças para virar a canoa.
Enquanto sente a maré subindo, mordendo as pernas, gelando a barriga, sufocando o menino, parece ouvir ao longe o último apito da fábrica.
marcelo d'ávila
Escrito por marcelo às 10h36
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