O GRITO DE DÉDALO
“Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!”
(Bertold Brecht)
Dezessete de julho de 2007: abrimos nossas janelas e, pálidos de espanto, ouvimos não estrelas, mas os ecos da absurda explosão do vôo 3054 em Congonhas. Assusta, apavora, revolta, mas lamentavelmente não surpreende. Porque a tragédia aérea não pode ser chamada de acidente: a recorrência exclui a fatalidade, o fortuito. Sobretudo quando incompetência e negligência caminham de mãos dadas. Como uma crônica de um desastre anunciado, há muito os especialistas alertam sobre os riscos de um sistema que não prioriza a segurança dos passageiros. Aquele Outro decantado, como profetizou Hilda Hilst, permaneceu surdo a nossa humana ladradura. O resumo desta ópera dramática é que, antes mesmo de uma conclusão definitiva sobre o choque entre duas aeronaves no Centro-oeste há menos de um ano, mais de duzentas pessoas são vitimadas em um novo episódio. A matemática macabra aponta para quase quatrocentas mortes somadas as duas ocorrências. O Estado, como Medeia, assassina seus próprios filhos. E, à maneira de Lorde McBeth, fecha os olhos e ignora o fantasma de tantos Banquos a assombrar suas noites.
Como um impotente Dédalo a ver a queda de Ícaro com suas asas desfeitas pelo calor do sol, resta a nós, os filhos que sobrevivemos, um indignado grito preso na garganta. O mesmo Dédalo que instruiu Ariadne a utilizar um fio condutor para retirar Teseu do labirinto de Minos. Talvez o que nos falte seja este fio condutor para que possamos sair do perigoso labirinto em que nós mesmos nos metemos.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 23h26
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