SEGUNDA CHANCE
Que porra de vida é essa uma garrafa de pinga como companheira pra aquecer as tripas nas noites frias um cobertor de notícias velhas e as estrelas como teto? De manhãzinha a geada realça ainda mais o branco dos cabelos em desalinho a falta de dentes e o hálito da madrugada anterior. Passantes riem alguns jogam moedas sem valor uma piada qualquer.
Não existo.
Sei que não existo.
Porque sou uma impossibilidade um narrador em primeira pessoa inverossímil mendigo de praça cachaceiro que falaescreve como um erudito mas não conheço Joyce ou Faulkner nem sei quem é Bloom e menos ainda onde fica Dublin nunca li Palmeiras Selvagens aliás nunca li merda nenhuma poderia parecer quem sabe um Quixote moderno se tivesse a mínima idéia de quem foi Miguel de Cervantes e no entanto escrevofalo em fluxo de consciência monólogo interior e sequer ouvi falar em Virginia Woolf então mesmo sem saber que porra é verossimilhança sei que não existo porque sou inverossímil míssil autodestrutivo erudito porranenhuma sei que me chamo Otto e isso é um palíndromo e nem consigo dizer palíndromo com a cabeça cheia de cachaça cabeça cheia de cachaça é uma aliteração e nem sei que porra vem a ser uma aliteração alteração altercação jogo inútil de palavras de um narrador impossível que nem conhece poesia João Cabral Ezra Pound nunca ouvi falar Otávio Paz paz de espírito e se eu soubesse quem é Manoel de Barros diria que me pareço com ele barba branca branda como a geada das manhãs e o frio.
Minha cabeça cheia de cachaça poderia repetir aliterantemente o que é que tem nessa cabeça irmão cuidado que ela pode irmão se ao menos conhecesse a cabeça de Walter Franco vanguarda nem sei o que é Murilo Rubião Jorge de Lima Haroldo de quê? Tudo é uma questão de manter.
Manter a inverossimilhança a espinha ereta e o coração tranqüilo.
Quem passa e ri e atira uma moeda qualquer sabe também que não existo piada de mau gosto. Mau agosto de geada branca graus negativos e a cachaça.
Poesia.
Eu poderia se soubesse dizer que um corvo pousou na minha barriga cheia de vermes nunca mais nunca mais mas ignoro Allan Poe tão embriagado quanto eu caindo morto pelas sarjetas de Boston. Bosta. Nunca mais ouvi falar de Boston Dublin Paraty Passo Fundo Budapeste. De peste eu sei.
Sou assim enfim narrador impossível improvável. Não existo e não há nem pode haver segunda chance pra mim que não conheço Hemingway bêbado como eu Horacio Quiroga bêbado como eu Qorpo Santo louco como eu Maupassant louco que nem. Nunca mais. Nunca na vida ouvi esses nomes por isso inexisto sou inverossímil. Sou invero. Sou inverso.
Verso.
Palavra.
Verbo.
Segunda chance.
No princípio era.
Tudo é uma questão de manter.
marcelo d´ávila
Escrito por marcelo às 20h28
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